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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

Pior que adultério

https://arquivo.pt/wayback/20140927025133/http://lifestyle.publico.pt/vidaemgrandeestilo/339058_pior-que-adulterio 

(uma vez no site, carregue na seta do canto superior direito para minimizar a tralha visual)

Adultério.jpg

 

Ser irmão mais velho é tramado. Por vezes olho para o meu filho mais velho e sinto-o a fervilhar de ciúmes. Até pode não transparecer, mas eu sinto que lá por dentro há várias camadas de raiva a formarem-se naquela cabecita de 4 anos.

 

Os sintomas podem ser um olhar fixo no irmão, de quem está a estudar o local exacto onde um murro pode ter maior impacto – como o tiro certeiro que destrói a Estrela da Morte na “Guerra das Estrelas” –, ou então, quando as pessoas se riem de uma gracinha do irmão, um riso amarelo, de quem só se ri por nervoso miudinho, altura em que receio estar a criar um psicopata vingativo. Ainda bem que ele não conhece a história de Caim e Abel, senão diria: “Ai sim? Matou?” E ficaria alguns segundos pensativo.

 

Ter um irmão mais novo é pior do que adultério, porque, da perspectiva do irmão mais velho, é uma traição cometida mesmo à frente do nariz. O irmão mais velho viveu o idílio. Viveu o presépio. E o presépio tem muita força, senão os adultos não andavam ainda hoje a pôr bonequinhos numa casinha, como se fossem crianças. Três foi a conta que Deus fez. Se calhar porque não sabia fazer outras contas. Mas foi a que fez. E o filho mais velho não concebe o mundo de outra maneira. O irmão mais novo é como um twist, um volte-face numa história predefinida. Só que uma criança pequena não está habituada a volte-faces nas histórias, porque ainda não viu muitos filmes.

 

Se calhar a solução passa por pôr o filho mais velho a ver muitos filmes de Hollywood, para se habituar à ideia de ter um irmão. Se o nascimento do irmão fosse um trailer de Hollywood seria, na cabeça dele, qualquer coisa como:

«Ele era feliz. Tinha o pai e a mãe só para ele e tudo parecia perfeito. Um autêntico paraíso na Terra.

Até que de repente surgiu algo inesperado. E as coisas nunca mais foram as mesmas!

“Onde é que está o mano?” “Está a dormir connosco no quarto.” (Gritos. Choros. Convulsões)

Do mesmo realizador de “Pesadelo em Elm Street 4”, chega-nos agora “O irmão mais novo”.

Num cinema perto de si.»

 

A vinda do irmão mais novo é o que se chama em cinema de plot point. É o acontecimento que precipita a acção. Neste caso, a acção de dar tabefes; que é a única coisa de jeito que dá para fazer com um irmão mais novo nos primeiros tempos. Para o filho mais velho, o irmão é, na melhor das hipóteses, um investimento a médio prazo. E digamos que uma criança pequena não é a pessoa ideal a quem explicar: “Olha, vais ter de fazer um investimento a médio prazo.”

 

O meu irmão mais velho só começou a ver verdadeira utilidade em mim nos dias em que davam filmes ou séries de terror na televisão e dormia na minha cama. Acontecia geralmente nos dias em que dava o Hitchcock – algures nos anos 80 –, série que nos fazia ir para a cama de olhos esbugalhados, transidos de medo. Nunca mais me esqueci de um episódio que terminava com o assassino atrás da porta, de facalhão em punho, enquanto a vítima fechava lentamente a porta a achar que já se tinha livrado do pior. Fim de episódio. Entra música do Hitchcock. Criança de 6 anos petrificada com coração a 300 à hora, como se tivesse bebido 7 bicas de penalty.

 

Após breve conferência, eu e o meu irmão chegávamos rapidamente à conclusão que era boa ideia dormirmos na mesma cama, uma vez que parecíamos mochos taquicardíacos.

 

Acho que nunca dormi um sono tão repousado e tão seguro como quando dormia com o meu irmão na mesma cama. Era como se a cama fosse de repente uma redoma indestrutível, a salvo de toda e qualquer ameaça. O que faz todo o sentido, porque se entrasse um larápio por ali a dentro diria certamente: “Bolas, vou ter de bater-me com uma criança de 6 anos e outra de 9 ao mesmo tempo! Não tenho hipótese! Vou mas é fugir!”

 

Se hoje em dia eu e o irmão temos uma relação minimamente decente devemo-lo ao Hitchcock e ao senhor que fazia a programação da RTP. Obrigado, senhor. Se calhar o problema de Caim e Abel é que nunca dormiram na mesma cama. Porque se tivessem dormido não andavam aí à bulha e a matar-se.

 

Também tenho esperança que os meus filhos se entendam. Mas, para já, o meu filho mais velho continua a ver sobretudo no irmão um bom saco de pancada, porque relativamente mole e apático. No entanto, há sinais de esperança, porque começaram a dormir no mesmo quarto e parecem não desgostar da ideia. Se calhar vou pôr-lhes um Hitchcockezinho para estreitar laços. “Vá, já chega de Canal Panda. Vamos aqui ver uma história gira com um senhor de facalhão.” “Onde é que está o senhor de facalhão, papá?” “Está atrás da porta. Divirtam-se. Até logo.”

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