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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

Particularidades de um hotel com mutas estrelas

http://p3.publico.pt/vicios/em-transito/25914/particularidades-de-um-hotel-com-mutas-estrelas

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Estive num hotel com mutas estrelas e eis as particularidades que lhe encontrei:

 

Abertura de cama

Pelo nome podia ser uma jogada de xadrez, mas não é. Consiste numa pessoa que se desloca de propósito a nosso quarto para fazer pequena dobra no lençol de cima, facilitando a entrada de pessoas labregas no leito. E consiste ainda em colocar um panito no chão de cada lado da cama de casal, que mais parece um individual de mesa trabalhado, para que o belo do hóspede não pise o super fofo e imaculado tapete, não vá dar-se o trágico contacto do seu régio pezinho com um miniborboto.

 

Os guardiões do leite

O bufete (palavra claramente preferível a buffet ou bufê) de pequeno-almoço é generoso. Mas os empregados do bufete são estranhamente ciosos do jarro de leite. Levam a mal se nos quisermos servir do precioso líquido com nossas próprias mãos. Eles é que são os guardiões do leite. Por duas ou três vezes cometi a heresia de me servir e fui completamente crivado de olhares fulminantes. Julguei que ia desmaiar. 

Nestes lugares não podemos extravasar a nossa qualidade de calaceiros profissionais e tentar passar por pessoas normais. Ou bem que somos porcos burgueses ou bem que somos criadage. Não há sociedades do séc. XXI. Não há meios-termos. Se queremos brincar ao séc. XIX temos de ir até ao fim. É justo. Expressões como “Queres leite? Serve-te!” passam neste universo paralelo a “Queres leite? Eu sirvo-te, ó palhaço!” O “ó palhaço” não é dito, mas está implícito no olhar.

 

A palermice do spa

Hoje em dia, hotel de jeito que é hotel de jeito tem de ter um spa. Eu termas ainda percebo, que sempre se aligeira uma artrite reumatóide ou um valente ataque de gatos nos brônquios. Agora o spa é pura palermice. Não digo que não seja agradável levar com vigorosos jactos de água no lombo, como se quiséssemos relaxar à metralhadora. Mas perante tamanho caudal a jorrar, não consigo conter o merceeiro que há em mim. Só consigo pensar: “Quantas descargas de autoclismo é que estão aqui? Esta malta não se cuide não, que ainda apanha uma surpresa na conta da água.”

 

A sauna é um braseiro que não se pode. Fico lá dois segundos e tenho a sensação que já levo reservas de calor para o resto da vida. Sair cá para fora é um alívio. Dá vontade de avisar os outros “Não entrem lá dentro! Está um calor horrível!” E o banho turco ainda é pior. Ao calor insuportável junta-se uma fumarada asfixiante. Parece que estamos a assar no forno. Se eu quiser ter uma ideia do que sofre uma dourada ou um peru no forno meto-me no banho turco. É a minha forma de criar empatia com os animais que como.

 

Acho que o melhor do spa é que podemos andar de robe pelo hotel. Temos licença para robar. É um fenómeno curioso nestes hotéis chiques, há muita gente aperaltada, bem vestida, algumas de casacos de peles, e de repente vêem-se lá uns bacanos a passear de roupão e chinelas na descontra.

Em casa temos pudor em abrir a porta de roupão, mas aqui a malta passeia-se de robe turco como se estivesse na rua a caminho de mais uma jornada de trabalho. Acho muito bem. Sou todo a favor desta prática extremamente fofa e confortável. Mas é preciso perceber que tem um custo de palermice associado.

 

O estacionamento do veículo

Eis a suprema labreguice. Nestes sítios há pessoas que estacionam o carro por nós. É incrível, mas é verdade! E quando está um frio de rachar sabe que nem ginjas. É daqueles casos em que damos graças por estarmos instalados em Downton Abbey.

 

Mal parámos o carro à porta daquele antigo palácio aparece-nos à frente um tipo de casacão, cabelo à escovinha e auricular no ouvido, qual paquete do KGB. Por momentos pensei que ia prender-nos, mas não, só queria as chaves da viatura. Sim, porque nestes sítios de alto coturno não se diz “carro”, diz-se “o veículo” ou “a viatura”. “Carro” é muito baixo estrato. Pelo jargão, parece que estamos sempre a falar com polícias. Pelo sim, pelo não, nunca mais larguei os documentos da viatura, nem no banho turco.

 

 

O perigo destes sítios é que depressa nos habituamos ao bem-bom. O fenómeno de aburguesamento é muito rápido. Ao cabo de três dias já nos transformámos em gordos latifundiários, a quem só falta o mordomo para arrancar as botas. O que vale é que o feitiço se quebra mal transpomos a porta do palácio encantado e tanto nós como o carro nos convertemos novamente em abóboras. Ao mesmo tempo, não foi sem alívio que saí dali, porque aquele paquete do KGB já me estava a provocar calafrios. Ainda dei por mim a espreitar pelo retrovisor, para ver se ele não vinha atrás de nós na sua viatura.

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