urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco goncalvejarco Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc. LiveJournal / SAPO Blogs goncalvejarco 2019-04-09T15:34:39Z urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:11942 Gonçalve Jarco 2019-04-09T16:28:00 A alegria de nos chamarem “menino” e outros sintomas de quarentão 2019-04-09T15:34:39Z 2019-04-09T15:34:39Z <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/04/05/culto/cronica/alegria-chamarem-menino-sintomas-quarentao-1868106" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/04/05/culto/cronica/alegria-chamarem-menino-sintomas-quarentao-1868106</a></span></p> <p class="sapomedia images"><img style="width: 768px; padding: 10px 10px;" title="basset-hound-im-grass.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Baf171aa2/21414366_DAqtb.jpeg" alt="basset-hound-im-grass.jpg" width="768" height="511" /></p> <p class="sapomedia images"> </p> <p>- Num restaurante, a empregada de mesa chamou-me “menino” e eu fiquei contente. Ela disse “O menino, o que vai querer?” e uma sensação inesperada de bem-estar me invadiu. Os meus olhos quarentões iluminaram-se e uns calores subiram por mim acima, como os afrontamentos que nunca experimentarei. Senti-me lisonjeado. Pareço a minha mãe, que por volta dos quarenta chegava a casa toda ufana e dizia “A cabeleireira tratou-me por menina, vejam lá!” Eu achava ridículo e pensava “É a minha mãe a tentar lidar com o envelhecimento, coitada.”</p> <p> </p> <p>Agora pelos vistos também gosto. Logo a seguir, a dita empregada de mesa vira-se para o octogenário da mesa ao lado, que lê o Correio da Manhã em alta concentração, letra a letra, possivelmente porque as dioptrias dos óculos garrafais já não são suficientes, e pergunta-lhe: “O menino vai querer café?”</p> <p> </p> <p>“Boa”, pensei, “eu e ele somos igualmente meninos”. Percebi que ela dizia aquilo a todos ou então só a pessoas de certa idade, o que me colocava automaticamente no grupo dos merecedores de tratamento condescendente. Resultado, o que parecia uma linda história de robustecimento do ego acabou em tragédia auto-estímica.</p> <p> </p> <p> </p> <p>- Cada vez mais me assemelho a um cão Basset, porque as pálpebras estão a descair. Aqueles cães que parecem estar sempre a ganir por dentro, como se estivessem cheios de pena de si mesmos, literalmente com cara de cachorrinhos. Só espero que isso ajude a que cuidem de mim na velhice. Desde já aviso que se me atirarem um pau não vou buscar.</p> <p> </p> <p> </p> <p>- Quando faço <em>zapping</em> detenho-me cada vez mais na RTP Memória. O dedo parece que gruda quando passo ali, como se sentisse o chamamento da sereia idosa. No outro dia estava a dar o <em>talk-show</em> do Júlio Isidro e eu parecia o meu avô a rejubilar com malta da velha guarda “Olha, este!”, “Olha, aquela!” A RTP Memória é a minha cena e isso assusta-me.</p> <p> </p> <p><strong> </strong></p> <p>- Começam a aparecer-me uns pontinhos castanhos na pele. Eles vêm de mansinho, mas já topei alguns. Quando somos crianças é giro ter pontinhos castanhos na cara, vulgo “sardas”. Mas à medida que envelhecemos são pontinhos pelo corpo todo, cada vez maiores. Parece que apanhámos uma varicela castanha ou uma praga qualquer, da traça da batata ou míldio, não faço ideia. Acho que vou consultar um engenheiro agrónomo.</p> <p> </p> <p> </p> <p>- Sinto-me a criar uma pança para o futuro, como quem cria um PPR. Experimento sentimentos contraditórios quando olham para a minha barriga com abas e dizem: “Estás em excelente forma!” Porque normalmente é dito por amigos ou familiares pançudos e soa a conversa de nereidas anafadas, que nos querem atrair para o seu clube.</p> <p><strong> </strong></p> <p><strong> </strong></p> <p>- Ainda compro CDs. No Natal calcorreei várias lojas para encontrar um CD que queria oferecer ao meu irmão e os funcionários olhavam para mim com ar de pena e estranheza a pensar “Este ainda vive no mundo dos CD.” Num dos sítios chegaram a responder-me devagarinho, como a um louco medicado: “Olhe, os CDs estão naquele cantinho, mas a secção é para descontinuar.” Só faltou falarem mais alto, para ver se eu compreendia melhor. Da próxima vez ponho a mão na orelha em funil para tornar as coisas mais interessantes.</p> <p> </p> <p> </p> <p>- Já entrei na fase dos pêlos estranhos. Começam a irromper pêlos em catadupa de dentro das orelhas e do nariz, como <em>bouquets</em>. Mas também brotam uns pêlos matreiros da parte de fora das orelhas e do nariz. E eu sei que isto acaba mal, porque vou ficar como o meu avô, que tinha o seu bosque pessoal de rijos e viçosos pêlos na batata do nariz.</p> <p> </p> <p>É o corpo a dizer-me que já cumpro os requisitos para entrar na andropausa, pelo que já não é preciso manter o cenário de pé, e deixa o matagal crescer à vontade, como ervas daninhas. Houve tempos em que o meu organismo tinha um Plano de Ordenamento do Território e mantinha as pilosidades em ordem. Mas isso acabou. Agora sou eu que faço barba, nariz, orelhas e é se quero. No outro dia apareceu-me um pêlo branco na narina e, como sou careca, só aí percebi que estava a ficar grisalho. Ou seja, não só não tenho cabelo, como o envelhecimento me aparece pelo nariz. Mais digno é impossível.</p> <p><strong> </strong></p> <p><strong> </strong></p> <p><strong> </strong></p> <p class="sapomedia images">Quanto mais convivo comigo, mais me apercebo de que não sou único. Sou uma colagem esquisita dos meus antepassados: o nariz peludo do avô, as manias de meia-idade da mãe, os tiques do pai – de quem herdei uma estranha tendência para levar a mão à orelha, a fim de coçar o lobo da mesma. Quando a mão vai a meio caminho dou por mim a pensar “Porque é que eu estou a fazer isto?” Mas faço na mesma. Constato aos 41 anos que sou uma espécie de Frankenstein. Se me aparecerem dois parafusos no pescoço acho que ninguém vai estranhar.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:11620 Gonçalve Jarco 2019-03-05T11:21:00 A churrasqueira lenta 2019-03-05T11:33:41Z 2019-03-05T11:33:41Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="churrasqueira lenta.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B7118fcf1/21373765_rZUil.jpeg" alt="churrasqueira lenta.jpg" width="500" height="345" /></p> <p class="sapomedia images"> </p> <p class="Standard">Conheço uma churrasqueira que tem filas intermináveis à porta. E o incrível é que há outras duas churrasqueiras mesmo ao lado – mesmo, mesmo ao lado –, uma na porta acima e outra na porta abaixo. Mas só a do meio vinga. As outras estão às moscas.</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">O frango da do meio é de facto melhor, mas não é o Santo Graal do churrasco. Por isso pergunto-me se parte do sucesso deles não residirá na lentidão do serviço. Porque isso permite-lhes acumular um mar de clientes rua fora que lhes dá uma aura especial, parecendo que só aquele frango é comestível e o dos outros conduz potencialmente à morte. Eu sei que isto soa a teoria da conspiração, mas acho que esta tem pernas para andar, porque eles conseguiram atingir um verdadeiro profissionalismo lerdo. Vejamos como:</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">O elenco é composto por quatro funcionários. No principal papel temos uma senhora dos seus 60 anos que, apesar de saber que há um ror de gente para atender, fá-lo com todo o tempo do mundo. Corta o frango bem cortadinho e prepara-o com todos os efes-e-erres a ritmo de tartaruga entrevada, enquanto mete conversa com a pessoa que está a atender sobre os filhos, os genros ou os netos do raio que a parta. Depois há dois funcionários que estão de cotovelo na bancada e que vão fazendo umas coisas. Não se sabe bem o quê, umas coisas. Mas estão devidamente fardados de camisa branca e calça cinzenta, como se estivessem preparados para todo o serviço. Acho que o trabalho deles é estar devidamente fardados. E depois temos o escravo que vira os frangos e que realmente trabalha. Mas é a excepção à regra daquela péssima linha de montagem.</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Eu estava habituado a outras churrasqueiras, cujo funcionamento está nos antípodas desta. Conheço uma que é tão eficaz que mais parece um campo de extermínio de frangos. O cheiro do respectivo Holocausto aviário sente-se a três quilómetros de distância. Eles são tão rápidos que já devem ter “churrascado” pessoas por engano. Aviam clientes às pazadas. Conseguem desbastar uma fila de gente em meia dúzia de minutos. Parece que estão a treinar para as Olimpíadas do Churrasco ou que querem ser contratados pelas melhores churrasqueiras do mundo.</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Já a supracitada churrasqueira do meio está mais empenhada em bater recordes mundiais de pastelanço. São estratégias tão diferentes que espanta como ambas conseguem ter tanto sucesso. Dava vontade de contratar um antropólogo ou um sociólogo para estudar o comportamento das churrasqueiras.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:11407 Gonçalve Jarco 2019-03-03T11:58:00 Contra o apartheid dos parques infantis 2019-03-03T12:11:49Z 2019-03-05T12:24:08Z <p><a href="https://www.publico.pt/2019/03/01/culto/cronica/apartheid-parques-infantis-1863840" rel="noopener"><span style="font-size: 10pt;">https://www.publico.pt/2019/03/01/culto/cronica/apartheid-parques-infantis-1863840</span></a></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="sobe e desce.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfd17b6fe/21371557_56Bc2.jpeg" alt="sobe e desce.jpg" width="500" height="264" /></p> <p> </p> <p>Há pais que se percebe que vão ao parque infantil em desespero de causa. Precisam de soltar as crianças, como quem solta os cães, enquanto se deixam cair no banco de jardim e tentam recuperar a consciência. Só querem ficar quietos um bocadinho, invisíveis, em posição fetal, de preferência, e até tremem de medo quando ouvem ao longe o terrível chamamento, caracterizado pelo arrastar da última letra: “papááá” ou “mamããã”.</p> <p> </p> <p>Eu já tive os meus momentos de pai fetal no parque infantil, mas por norma consigo estar fora da zona de desespero, embora perfeitamente disponível para ser deixado em paz. No entanto, as solicitações não tardam. É-me pedida ajuda para subir à corda mais difícil, para empurrar o rabo no baloiço, para empurrar o rabo na parede de escalada. Por vezes sinto que a minha única grande tarefa no parque infantil é ser empurrador de rabos.</p> <p> </p> <p>Às vezes os meus filhos pedem-me que suba aos divertimentos com eles e eu penso “Porque não? Entre isso e empurrar traseiros…” Mas nessa altura lembro-me da ameaçadora placa à entrada do parque que diz “Idade: Dos 3 aos 12 anos. Entidade fiscalizadora: ASAE.” E ninguém se quer meter com a ASAE, que deve ser a Gestapo dos parque infantis. Então tento explicar aos catraios: “A sociedade não me deixa subir. E a ASAE também não. Pode haver coimas.” Mas eles fingem que não percebem e estendem-me o braço.</p> <p> </p> <p>Lá acabo por subir, correndo o risco de a avozinha ao meu lado ser fiscal da ASAE. Há quem faça parkour, eu subo a casinhas de madeira e desço escorregas à sorrelfa. São duas formas distintas de sentir a mesma adrenalina. É óbvio que se estiver um forte trânsito – não confundir com <em>Ford Transit</em> – de crianças, não vou lá para cima dar uma de Gulliver, espezinhar a pequenada. Mas se houver boas condições de circulação, arrisco a transgressão. E já percebi que não sou só eu, já vi vários pais em manobras clandestinas e perigosas no parque, como andar de baloiço ou sobe-e-desce.</p> <p> </p> <p>Não percebo este <em>apartheid</em> entre adultos e crianças nos parques infantis, quando hordas de psicólogos, pedagogos e paramilitares nos massacram com a ideia de que é fundamental brincarmos com os nossos filhos. Dizem que liberta oxitocina, plasticina e outras “inas” aconchegantes; que estreita laços, estreita a comunicação, estreita a ligação Belém-Trafaria. Suplicam “Não deixe morrer a criança que há dentro de si”, o que me assusta, porque pode querer dizer que estou grávido e ainda por cima de um bebé em estado crítico.</p> <p> </p> <p>Eu acho que isto dos equipamentos recreativos devia ser ao peso, como no talho. “Este baloiço aguenta até 200 kg de pessoa.” Se o ser humano inventou coisas extraordinárias como o café sem cafeína e as palmilhas Dr. Scholl, tenho a certeza de que também consegue construir escorregas e sobe-e-desces à prova de pais de grande porte.</p> <p> </p> <p>Acho­­­­ que está na altura de defender o superior interesse do adulto no parque infantil. Porque compatível com o outro superior, da criança, numa conjugação de superiores nunca antes vista. Deviam abrir parques com equipamentos multi-idade, para libertar os pais que, como eu, não podem estar sossegados, nem muito interactivos. São pais nem-nem, que vivem neste purgatório de empurradores profissionais, como bolas descoloridas entre as mãos de uma criança. Apelo, por isso, ao fim deste aperreante regime de segregação etária no parque infantil.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:11022 Gonçalve Jarco 2019-02-20T16:10:00 Pede-se o favor de não limpar a casa de banho 2019-02-20T16:30:17Z 2019-02-20T16:30:17Z <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="gang limpezas.jpg" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6b18763a/21360442_TgE0F.jpeg" alt="gang limpezas.jpg" width="300" height="370" /></p> <p>No restaurante de um clube recreativo, para os lados de Sacavém, vi um papel na porta da casa de banho que dizia:</p> <p> “Pede-se o favor de não sujar nem limpar a casa de banho. Deixe-a como encontrou.”</p> <p>Aquilo não parecia uma casa de banho de um restaurante, parecia o local de um crime.</p> <p> </p> <p>Quem é que se dá ao trabalho de limpar uma casa de banho fora de casa?</p> <p>Será que há alguém que diz “Olha para esta casa de banho. Deixa-me cá dar uma lixiviadela que este chão não está em condições.”? Entretanto, aparece o amigo: “Então, não vens para a mesa?” “Já vou. Deixa-me só passar Cif Gel nesta retrete, que isto está uma desgraça.”</p> <p> </p> <p>Claro que aquela mensagem pode ser só uma piadola de trazer por casa. De banho. Mas e se não for? (Entra som assustador de filme assustador) Fica a questão.</p> <p> </p> <p>Se calhar foram vítimas do perigoso gangue limpador de lavabos, que já higienizou várias sanitas e lavatórios do município de Loures a sangue frio. Ninguém está a salvo da violência dos seus lava-tudos perfumados. A polícia anda no encalço desta pandilha há anos, mas até agora sem sucesso, porque eles eliminam todas e quaisquer impressões digitais com lixívia Neoblanc Densa+ Harmonias Florais.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:10992 Gonçalve Jarco 2019-02-14T09:04:00 Carta ao casal de pandas da minha escola primária 2019-02-14T09:15:15Z 2019-02-14T09:15:15Z <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 8pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/02/13/culto/cronica/carta-casal-pandas-escola-primaria-1861653#gs.RquBgfez" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/02/13/culto/cronica/carta-casal-pandas-escola-primaria-1861653#gs.RquBgfez</a></span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="pandas.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Gf0171946/21353391_zJyJY.jpeg" alt="pandas.jpg" width="427" height="239" /></p> <p> </p> <p> </p> <p>Caros Sérgio e Rita,</p> <p> </p> <p>Ainda me lembro do dia em que vos encostámos aos muros da escola, como caçadores furtivos a dois animais assustados. Queríamos à viva força que vocês se beijassem ali ao pé dos pedregulhos, ao fundo do campo de futebol. Vocês queriam privacidade, mas não estava fácil, uma vez que, para onde quer que fossem, a turma inteira ia atrás a gritar “Beija, beija!” Se vos tivéssemos perseguido em caravana de jipes descapotáveis, com holofotes apontados e binóculos ao ombro, ao estilo safari, não teria sido pior. Ainda bem que vocês não tinham um corno na ponta do nariz, senão estavam tramados.</p> <p> </p> <p>O vosso olhar de semi-pânico era uma pista de que algo não estava bem. Mas nós continuávamos, porque estávamos eufóricos, descontrolados. Vocês eram o mais próximo que tínhamos visto de um casal de namorados a sério e achávamos que iam satisfazer toda a nossa curiosidade no que ao amor diz respeito: “O que é isso de ser namorado? É dar a mão, beijar? Como? E para quê?”</p> <p> </p> <p>Hoje em dia, olho para o meu filho e vejo que podia ter resolvido estas questões de uma forma prática, porque ele com 7 anos disse-me que tinha quatro namoradas na escola e eu perguntei-lhe “Ai é? Há quatro meninas que gostam de ti?” “Não sei.” “Não sabes?” “Não.” E a conversa acabou aqui, porque percebi que ele tinha passado directamente da fase dos amigos imaginários para a das namoradas imaginárias e vivia bem assim. Era um pouco indiferente se tinha quatro ou zero namoradas, porque o importante era jogar à bola e correr à volta da escola como um hamster numa roda. Mas eu não tinha estas soluções. Possivelmente porque era estúpido, pouco criativo. Queria respostas.</p> <p> </p> <p>E vocês eram as nossas cobaias amorosas. Por outro lado, estávamos genuinamente a torcer por vocês. Queríamos muito que a vossa relação desse certo. Porque vocês tinham tudo para dar certo.</p> <p> </p> <p>Tu, Sérgio, eras o mais alto da turma, o que para mim era o mais parecido com um adulto, logo o mais capaz de ter um relacionamento como deve ser. E tu, Rita, eras a rapariga gira e despachada, que usava calças de fato de treino com estrelas – nada de padrões lisos sensaborões – e às vezes uma fita grossa na cabeça, como aquelas da aeróbica, o que te colocava num patamar de modernidade e desenvoltura muito acima do resto da turma.</p> <p> </p> <p>Tínhamos grandes expectativas para vocês. O vosso plano de vida estava traçado, mesmo que não soubessem. Vocês iam casar e ser felizes para sempre, sem direito a divórcio ou a qualquer desvio a este plano maravilhoso. E para garantir o sucesso do vosso acasalamento estávamos dispostos a dar-vos o nosso apoio incondicional durante 24 horas por dia, se fosse preciso. O que neste caso se traduzia por uma feroz turbamulta de bibe azul a encurralar-vos junto à vedação da escola primária – sim, usávamos bibe, lembram-se?</p> <p> </p> <p>Eu sentia-me um bocado mal a fazer aquilo, mas fazia na mesma. Porque era criança e de alguma forma intuía que me era permitido fazer coisas parvas. Apresento-vos desde já as minhas desculpas por qualquer incómodo ou trauma causado.</p> <p> </p> <p>Reconheço que o método de claque de proximidade não era o melhor. Acho que fizemos com vocês o mesmo que se faz com os pandas-gigantes em cativeiro. Como é que os pandas hão-de ter um rancho de crias quando têm meio mundo em cima deles a dizer “Vá, namorem, façam coisas”? Eu também não sei se conseguia acasalar com a torcida dos Super Dragões ou dos No Name Boys à minha volta com palavras de ordem como “Campeões, olé, olé!” ou “Carrega, Benfica!” Se calhar fazia como os pandas e perante os olhares estranhos e câmaras ocultas desatava a mastigar um rebento de bambu.</p> <p> </p> <p>E vocês eram os nossos pandas, Sérgio e Rita. Eram fofos e a vossa vida amorosa estava a ser mais escrutinada do que a dos concorrentes da “Casa dos Segredos”. Talvez fosse pressão a mais, mesmo para os vossos ombros, que pareciam bafejados pela selecção natural. Não sei o que é feito de vocês. Espero que não estejam em cativeiro. Seja como for, é meu desejo profundo que tenham toda a privacidade de que necessitam. E o melhor bambu que a natureza já viu nascer.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:10613 Gonçalve Jarco 2019-02-05T09:52:00 O medo inato de espanhóis 2019-02-05T09:58:28Z 2019-02-05T09:58:28Z <p class="sapomedia images"><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.publico.pt/2019/02/04/culto/cronica/medo-inato-espanhois-1860590" rel="noopener">https://www.publico.pt/2019/02/04/culto/cronica/medo-inato-espanhois-1860590</a></span></p> <p class="sapomedia images"><img style="padding: 10px 10px;" title="españa.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bfe17d259/21341745_KFpHc.jpeg" alt="españa.jpg" width="500" height="375" /></p> <p> </p> <p>Um dia destes, a minha moça disse-me: “Apetece-me ir ao estrangeiro.” Então fomos a Badajoz.</p> <p> </p> <p>E não se pense que é fácil ir a Badajoz. Há um nervoso miudinho que aflora sempre que transpomos a placa fronteiriça que diz “ESPAÑA”, por mais que visitemos o país vizinho. Não sei se é simples medo do desconhecido ou se guardamos um nervoso miudinho especial só para os espanhóis. Conheço gente que mais depressa vai de Vila Real de Santo António a Valença do Minho do que atravessa a fronteira para Espanha. São pessoas que sofrem de hispanofobia, uma maleita que vai rareando nos nossos dias.</p> <p> </p> <p>Seja como for, acho que todos os portugueses nascem com um certo medo inato de espanhóis, que vai ficando cada vez mais adormecido à medida que crescemos e percebemos que os castelhanos não nos querem invadir. Mas está lá, para as emergências. Deve ser por isso que conservamos um provérbio ou dois a maldizer os espanhóis, como aquele do vento e do casamento, não vão eles armar-se em espertos e atravessar a fronteira do Caia ou de Vilar Formoso com um exército de cavalaria e besteiros.</p> <p> </p> <p>Superada a placa e o respectivo trauma, decidimos dedicar-nos a esse jogo clássico e profícuo que é “Descubra as diferenças entre portugueses e espanhóis”. Porque esta coisa das fronteiras é impressionante. Basta andar meia dúzia de quilómetros para lá de Elvas e já estamos noutro mundo. É quase mágico. De repente ficamos cercados de presunto. Está por todo o lado. Os espanhóis devem ter fontes de presunto. Vão à fonte e enchem os cântaros de presunto. Já sei quem teve a bela ideia das batatas fritas com sabor a presunto. Só podem ter sido.</p> <p> </p> <p>Em Badajoz também desaparecem as sopas. Pelo menos como as conhecemos. Olhamos para a ementa e só vemos uns gaspachos, umas sopas frias, que vêm mesmo a calhar na brioleira de Janeiro. Dá a sensação que os espanhóis vivem como se fosse Verão o ano inteiro. O horário da <em>siesta</em> mantém-se inalterável na época fria. Durante a tarde, nas poucas horas de luz que o Inverno tem para oferecer, não se vê ninguém na rua. Os museus fecham das 14h às 17h30 e durante essas horas parece que a própria cidade fecha para descanso do pessoal habitante.</p> <p> </p> <p>Mas ao anoitecer, ali pela fresca, mesmo muito fresca, começam a aparecer pessoas. E aparecem de repente, de todos os lados. Parece “O regresso dos mortos-vivos”. Não sei se vêm do cemitério ou de casa, mas são aos magotes. Vêm desde famílias com bebés acabados de sair da maternidade até velhotes de cento e tal anos com pneumonia. Sai tudo. Vai tudo para a <em>movida</em> de Badajoz.</p> <p><strong> </strong></p> <p>O pequeno-almoço também é impróprio para portugueses. Não tanto por se comerem churros com chocolate logo pela manhã, o que qualquer nutricionista aconselharia, mas porque acontece mais um estranho fenómeno climatérico. Não há ninguém dentro dos cafés. Estão todos plantados na esplanada, como lagartos ao sol de Inverno. Não sei como aguentam. Eu tentei imitá-los, para me enturmar, e ia-me rebentando o esmalte de dois pré-molares de tanto tiritar. Ou os espanhóis possuem várias camadas de gordura, como as baleias, ou estão programados de forma diferente dos portugueses. Porque nós compreendemos o conceito de Inverno e de bem-bom, transmitido pelo quentinho interior de uma pastelaria. Já a estratégia deles para o Inverno não passa por hibernar, mas por fingir que o frio não existe. Vivem em negação do Inverno.</p> <p> </p> <p>No entanto, Badajoz ainda é uma terra com madeixas de portugalidade, porque qualquer boteco tem bacalhau. São eles claramente a piscar o olho aos portugas, enquanto pensam: “Estes lusitanos são loucos, metem bacalhau em tudo.” E têm razão. Basta dizer que temos um prato chamado “caras de bacalhau”. Ainda ninguém se lembrou de fazer “caras de garoupa” ou “caras de abrótea”, mas com bacalhau vale tudo.</p> <p> </p> <p>Nós portugueses gostamos de embirrar com os espanhóis: Agora que eles perderam a tendência de nos invadir, é porque falam muito alto no restaurante. O ideal para muitos portugueses era ter um telecomando só para espanhóis, para poder baixar-lhes o volume de vez em quando. Ou então devolvê-los a todos à fábrica, para corrigir a anomalia de fabrico ao nível do áudio.</p> <p> </p> <p>Regressar a Portugal é um misto de conforto e nostalgia. Conforto porque ficamos para cá da placa que diz “Portugal” e a salvo dos besteiros inimigos. Nostalgia porque cada vez gosto mais de Espanha e dos espanhóis. Apesar da confusão sazonal que me provocam. E de terem a mania de colocar as tabuletas de estrada que indicam “Portugal” na mesma letra minúscula que usam para as suas cidades de meia tigela, como se fosse igual aceder a um país inteiro ou ir para Oviedo. Pelo menos nós temos a delicadeza de os honrar com maiúsculas em todas as tabuletas que lhes dizem respeito. Tiram-me do sério estes espanhóis.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:10292 Gonçalve Jarco 2018-12-05T15:50:00 Do Tragabolas ao coscorão 2018-12-05T16:00:42Z 2019-02-05T09:59:49Z <p><a href="https://www.publico.pt/2018/12/01/culto/cronica/tragabolas-coscorao-1851723" rel="noopener"><span style="font-size: 10pt;">https://www.publico.pt/2018/12/01/culto/cronica/tragabolas-coscorao-1851723</span></a></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="tragabolas ao coscorão.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/G20182d2d/21270762_GUU7S.jpeg" alt="tragabolas ao coscorão.jpg" width="330" height="222" /></p> <p>Acho que uma das formas de percebermos que atingimos a idade adulta é quando o grande interesse do Natal migra das prendas para a comida. “Sim, era mesmo este livro que eu queria, mas onde é que estão as filhoses?”</p> <p> </p> <p>Lembro-me de quando era pequeno e salivava a olhar para os embrulhos de Natal que ainda não podia abrir. A minha única grande preocupação natalícia era saber a hora exacta a que se abririam as prendas. Por vezes circulavam rumores na noite do dia 24 de que a entrega seria antecipada, os avós queriam ir para casa, estavam cansados, os meus pais ficavam preocupados e eu pensava: “Boa, já não vamos esperar pela meia-noite! Mas isso quer dizer o quê, onze, dez e meia? Por favor, sejam precisos!” A falta de rigor noticioso dos adultos exasperava-me.</p> <p> </p> <p>Com o tempo, a excitação de espreitar os embrulhos de Natal deu lugar à excitação de espreitar coisas a assar no forno. Hoje em dia compreendo melhor as motivações do meu tio-avô, visita assídua dos natais, que seguia uma dieta rigorosa na Consoada. Comia a canja e saltava directamente para as sobremesas sem passar pelo peru, para se dedicar de imediato à grande paixão da sua vida natalícia, os coscorões. Com ele aprendi que a terceira idade nos enche realmente de sabedoria.</p> <p> </p> <p>Sinto falta dos meus tios-avós, tal como sinto falta dos meus avós. Os avós não precisam de fazer grande coisa para tornar os natais especiais, basta que andem ali pela casa, quais figurantes. Como o meu avô, que passava boa parte do tempo a dormir no sofá e que emprestava quentinho à casa. Uma lareira humana. Pensando bem, acho que o devíamos ter transferido de vez em quando para o corredor, para ver se aquecia aquela parte da casa, que era gélida nessa altura do ano. Eu tinha de correr do quarto para a sala, para não se formarem pedras de gelo nos rins.  </p> <p> </p> <p>Agora o papel de netos passou para os meus filhos e sobrinhos. E a grande diferença que noto em relação aos natais da minha infância é que actualmente os calendários do advento com chocolatinhos se banalizaram. Eu em miúdo só tive direito a uns calendários com uns bonequitos roscofes da Nossa Senhora e do Menino Jesus e nada de chocolates. Sim, há aqui algum ressentimento.</p> <p>De resto, é tudo muito parecido. Se hoje dizem que as crianças estão perigosamente expostas à publicidade de brinquedos, eu então era um poço de radioactividade publicitária. A minha lista de prendas era decalcada dos anúncios que via entre desenhos animados, d’A minha agenda RTP ao Pulgas na cama, passando pelo Tragabolas. Eu queria tudo o que aparecia nos anúncios. Se anunciassem o Kit de iniciação à heroína, tinha de estar na lista.</p> <p>Aviso: O autor desta crónica compreende que algumas pessoas possam não reconhecer as referências presentes neste parágrafo, pelo facto de o cronista já ser quase ancião ou praticamente um jovem, conforme o ponto de vista.</p> <p> </p> <p>Também mudou a forma como encaro o presépio, que em nossa casa é grande e envolve considerável produção. Antigamente empenhava-me em pôr as figuras no presépio seguindo à risca o teatrinho bíblico e as regras de perspectiva, com as peças maiores à frente e as mais pequenas atrás. Embora se notassem brechas nessa lógica, porque tínhamos um pastor de flauta que era maior do que os camelos dos reis magos, logo ao lado. Havia também a figura cuja base se partira e da qual recusávamos desistir, como um ferido de guerra que não podia ficar para trás. Tentávamos equilibrá-la mancamente num pedaço de musgo, mas ela teimava em cair, como se dissesse “Vão, deixem-me! Eu fico aqui! Vocês têm mais bonecos com que se preocupar. O presépio precisa de vocês!” E de facto acabávamos por deixá-la estendida a certa altura, porque não havia paciência para reanimações de dois em dois minutos.</p> <p> </p> <p>Os problemas de electrificação também eram recorrentes no presépio. E por vezes as luzes falhavam onde eram mais necessárias, na manjedoura, mergulhando a Sagrada Família no reino das trevas. Dava a ideia que alguém daquele agregado familiar se tinha esquecido de pagar a conta da electricidade e que a EDP lhes tinha cortado a ligação, logo no dia em que precisavam de receber rebanhos de amigos e de ovelhas. Aliás, as luzes do presépio eram tantas, que só o exercício de as camuflar ardilosamente no meio do musgo e do restante cenário, juntamente com a respectiva manutenção, era coisa para criar dois ou três postos de trabalho temporário.</p> <p> </p> <p>Nos dias que correm divirto-me mais a trocar a ordem das figuras do presépio, o que não agrada a certos sectores da família, mas para mim é quase irresistível testar as possibilidades de tantas figurinhas juntas. Se pusermos um rei mago no lugar do São José, por exemplo, damos imediatamente origem a um escândalo ao estilo telenovela «Belchior exige a Maria que conte a verdade a José, de que o bebé é seu. Não é por acaso que anda a oferecer ouro todos os anos.»</p> <p> </p> <p>Fazendo o balanço, o Natal é obviamente mais divertido em criança, porque é possível manter um pico de entusiasmo contínuo ao longo de um mês que só adultos bipolares conseguem igualar nos seus melhores períodos de euforia. Acho que foi por isso que os adultos investiram tanto na comida natalícia, para arranjar pontos de interesse para eles. O que se nota em particular nos doces, que são quase infindos e com nomes tão estranhos que muitos podiam substituir a palavra “tabefe” de forma credível numa frase: “Vê lá se não queres apanhar uma rabanada?” “Experimenta e levas com um par de coscorões!”</p> <p> </p> <p class="sapomedia images" style="text-align: left;">O engenho natalício do ser humano é impressionante, porque todos têm algo por que ansiar independentemente da idade, do Tragabolas ao coscorão. E quem não concordar comigo leva com duas azevias na fronha.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:10185 Gonçalve Jarco 2018-10-30T20:51:00 Pessoas-monólogo 2018-10-30T21:25:07Z 2018-10-30T21:25:07Z <p class="sapomedia images" style="text-align: left;"><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.publico.pt/2018/10/30/p3/cronica/pessoasmonologo-1849412" rel="noopener">https://www.publico.pt/2018/10/30/p3/cronica/pessoasmonologo-1849412</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="cabeça tv.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f178039/21221663_FsIwM.jpeg" alt="cabeça tv.jpg" width="500" height="282" /></p> <p>Há pouco tempo estive numa festa em que levei com quatro monologantes nas ventas. Não desejo isso a ninguém. Foram quatro KO de conversa seguidos. Ao fim do quarto monólogo estava de rastos. E o pior de todos foi mesmo o último, que me despejou toda a história do singular apelido de família em cima, desde as origens numa remota aldeia espanhola até se espalhar pelos quatro cantos do universo, terminando de forma magistral com a frase “Desculpa lá, relembra-me o teu nome.”</p> <p> </p> <p>Estas pessoas-monólogo não precisam de mais do que um recém-conhecido para disparar os seus mísseis de conversa. Encostam-nos às cordas, enchem-nos de pancada verbal, numa sequência infindável de ganchos e <em>uppercuts</em> de palavreado, e não estão disponíveis para receber um único perdigoto em troca. À mínima resposta da nossa parte mostram um ar agoniado, como se estivessem prestes a vomitar no barco para as Berlengas. Quando a festa acabou nem conseguia articular palavras, só balbuciava, porque já me tinha esquecido como se juntavam sílabas. Acho que deviam criar uma linha de apoio à vítima de monólogos.</p> <p> </p> <p>Quando estou com uma pessoa-monólogo sinto-me como se estivesse em frente à televisão. Ali estou mudo e quedo enquanto elas providenciam conteúdos durante 24 horas a fio, se for preciso, como um canal televisivo. Se eu conseguisse juntar mais de cem monologantes na mesma sala podia dizer que tinha mais de cem canais. Quando estou acompanhado por outra pessoa posso dar-me ao luxo de me evaporar da conversa ou pelo menos de me desligar por momentos da emissão televisiva e recuperar mais tarde o fio narrativo pensando “Deixa ver o que está a dar no Zé João.” Mas a solo tudo fica mais perigoso.</p> <p> </p> <p>Posso ter a sorte de apanhar um monologante interessante, daqueles que entretêm, como certos canais. Ou o azar de apanhar os que são tão entusiasmantes quanto o Canal Parlamento ou as televendas, vulgo “Pessoas que não dão nada de jeito”. Quando caímos nas garras de um chato deste calibre todos os expedientes são válidos para lhe escapar. Desde o subtil “Desculpe, mas tenho mesmo de ir fazer cocó”, ao aproveitar de um toque de telemóvel para dizer “Peço desculpa, mas vou ter de atender. É da Telepizza.”</p> <p> </p> <p>Também já dei por mim em registo monologante. Já atropelei intervenções de outras pessoas sem dó nem piedade, como um rolo-compressor de conversa. Por isso sei que tenho essa semente diabólica dentro de mim, o que me causa alguns arrepios. Não me quero tornar num especialista da escuta inactiva. Se calhar já me converti num daqueles seres que transformam dois minutos que podiam ser interessantes num fardo de palha de meia hora. Mas prefiro acreditar que não. Por isso vou aconselhando aos meus filhos “Não aceitem monólogos de estranhos.”</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:9950 Gonçalve Jarco 2018-10-15T13:47:00 Realizar 2018-10-15T12:52:58Z 2018-10-15T13:46:41Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="DSC06406.JPG" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba3171b8c/21203255_rCeGN.jpeg" alt="DSC06406.JPG" width="500" height="375" /></p> <p class="Standard">Há coisas na vida que não devemos deixar de realizar, os nossos sonhos e as descargas do urinol.</p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:9592 Gonçalve Jarco 2018-10-12T11:41:00 O Vieira dos frangos 2018-10-12T10:50:36Z 2018-10-12T10:50:36Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="DSC06413.JPG" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4e17d0fb/21200592_GtjQN.jpeg" alt="DSC06413.JPG" width="500" height="375" /></p> <p> </p> <p>Fui a um restaurante chamado “Vieira dos frangos”. Como estava com pressa pedi logo dois frangos. “Não temos frango.”, disse a empregada de mesa. “Mas vocês não se chamam ‘Vieira dos frangos’?” “Sim, mas frangos é só às quartas.”, respondeu a empregada já eriçada. “Se quiser frango tem de esperar 25 a 30 minutos. A sair temos feijoada de chocos”, completou.</p> <p>Acho que foi a primeira vez que entrei numa casa de frangos cuja especialidade não é frango. E o mais interessante é que o espaço estava todo decorado com bonecos e desenhos de galináceos. Deve ser uma cena nova. Em breve os donos deste restaurante vão abrir a “Pizzaria Vieira”, que só tem pizza às segundas. Nos restantes dias é feijoada de chocos. Nunca lhes passará pela cabeça abrir uma Feijoaria, porque isso vai contra os seus princípios.</p> <p>Dito isto, recomendo o Vieira dos frangos. Não só pela experiência única, mas também porque a feijoada de chocos era boa, o pão óptimo, o preço barato e o serviço de mesa rápido e eficiente. Tudo funciona, desde que não se queira frango.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:9245 Gonçalve Jarco 2018-10-10T22:03:00 Bio-saudável 2018-10-10T21:08:53Z 2018-10-10T21:08:53Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="DSC06397.JPG" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B0f17a411/21198912_WSDyc.jpeg" alt="DSC06397.JPG" width="500" height="375" /></p> <p>Eu só frequento parques bio-saudáveis. E também só vejo filmes bio-pornográficos. </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:9203 Gonçalve Jarco 2018-07-26T19:33:00 Fenómenos do incrível 2018-07-26T18:37:48Z 2018-07-26T18:37:48Z <p>Acho que comprei um bipêssego.</p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="DSC05555.JPG" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4212f47e/21113299_f3tF4.jpeg" alt="DSC05555.JPG" width="500" height="375" /></p> <p> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:8838 Gonçalve Jarco 2018-07-24T17:28:00 Pordata, o que realmente interessa 2018-07-24T17:19:56Z 2018-10-14T18:29:04Z <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Pordata.jpg" src="https://c3.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bae1399ed/21110778_hNGrO.jpeg" alt="Pordata.jpg" width="500" height="274" /></p> <p> </p> <p>É indiscutível que a <a href="https://www.pordata.pt/" rel="noopener">Pordata</a>, a base de dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos – oficialmente a fundação com o nome mais chato e comprido à face da Terra –, é uma mais-valia para todos nós. Melhor que a Pordata só mesmo a Porbatata, da qual não falarei agora, mas cujo site recomendo (<a href="http://www.porbatata.pt" rel="noopener">http://www.porbatata.pt</a>). </p> <p> </p> <p>No entanto, falta algum sal à maioria dos tópicos da Pordata. Foi preciso peneirar bastante para encontrar alguma coisa que valesse realmente a pena perscrutar. Como é de prever, lá está a preciosa taxa de mortalidade infantil, indicador em que Portugal fez enormes progressos nas últimas décadas, tal como já foi amplamente divulgado. Aliás, de tal forma divulgado e repisado, que parece que o país não fez mais nada digno de orgulho estatístico nos últimos 50 anos.</p> <p> </p> <p>O que não é verdade. Fizemos grandes avanços também no número de caixas multibanco. Passámos de uma caixa multibanco (MB) por cada 1216 habitantes em 2001, para uma caixa MB por cada 848 habitantes em 2016 (últimos dados disponíveis). Uma melhoria notável em todos os aspectos.</p> <p> </p> <p>Portugal reúne neste momento excelentes condições multibanco. Exemplo disso é a Ilha do Corvo, nos Açores, paraíso do multibanco português, com uma caixa MB por cada 230 habitantes. Uma média impressionante, que se traduz no belíssimo total de duas caixas em toda a ilha. Esperemos que uma delas não esteja numa escarpa. Outro sítio que recomendo é o município de Mourão, no Alto Alentejo, com o impecável rácio de uma caixa MB por cada 418 habitantes. Se passar por lá não perca a oportunidade de fazer um levantamento, porque vale muito a pena. São cada vez mais os turistas que fazem um desvio até lá, o que demonstra bem a vitalidade do turismo multibanco.</p> <p> </p> <p>Por sua vez, quem estiver muito aflito ou aflita para realizar uma operação multibanco deve evitar o município de Penalva do Castelo, no norte do país, que tem uma mísera caixa automática para cada 2462 habitantes. É talvez o pior sítio para a prática do multibanco, a não ser que a população viva muito concentradinha, em feliz consanguinidade. Assim fica difícil consultar o saldo no ecrã ou obter uma licença de pesca submarina. Sim, é possível obter licenças de caça e de pesca no MB. Aqui fica uma informação valiosa para toda a família.</p> <p> </p> <p>Mas a desgraça de Penalva do Castelo não se fica por aqui, porque também é uma terra péssima a divorciar-se. Apenas 23 divórcios em média por cada 100 casamentos de 2011 a 2016, quando a média nacional neste período é de 72 divórcios por 100 casamentos, segundo os últimos dados disponíveis (os valores de 2014 a 2016 são provisórios, mas eu uso na mesma, porque sou um maroto). Ou a conservatória de Penalva não dá vazão aos pedidos de divórcio ou aquilo é gente que não separa os trapinhos nem por nada. Se calhar é da consanguinidade, provocada pela falta de multibancos. Mais a sul do país, Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil, mas continua com fracos níveis de divórcio. E Alcochete deu-lhe com força no descasamento em 1995, mas desde aí tem vindo a desinteressar-se.</p> <p> </p> <p>A melhor sequência de divórcios dos últimos anos vai para o município de Aljustrel, com a incrível média de 200 divórcios por cada 100 casamentos de 2011 a 2016. Parabéns, Aljustrel! Que grande desempenho! Isso significa que, por cada um que se casa, há dois que se descasam. São excelentes números, de facto. Destaque também para Almodôvar que, após algumas hesitações, se divorcia agora a bom ritmo. E uma palavra para o município de Santa Comba Dão, berço do nosso ditador preferido, que apesar de estar numa região pouco dada ao divórcio, exibe uma robusta média de 60 divórcios por cada 100 casamentos de 2011 a 2016. Salazar ficaria babado.</p> <p> </p> <p>Passemos agora ao desporto, como diria um apresentador de telejornal. Chegam-nos notícias tristes da columbofilia, essa modalidade cujo nome faz lembrar abusadores de pombos, porque o número de praticantes federados caiu para menos de metade em pouco mais de uma década. Eram cerca de 18.000 em 2003 e em 2016 tinham decrescido para 8600 praticantes. É importante redescobrir este desporto, em que somos vice-campeões olímpicos na categoria de velocidade, através de obras de referência como “Columbofilia e um sorriso”, de Mário Carlos Areosa.</p> <p> </p> <p>Mais optimista é o cenário no andebol, cujo número de praticantes tem aumentado nos últimos anos. Curiosamente, mais ou menos a par da subida da população com mais de 75 anos (<a href="https://www.pordata.pt/DB/Portugal/Ambiente+de+Consulta/Gr%C3%A1fico/5748661" rel="noopener">https://www.pordata.pt/DB/Portugal/Ambiente+de+Consulta/Gr%C3%A1fico/5748661</a>). O que nos permite concluir que as pessoas tendem a jogar andebol com a idade.</p> <p> </p> <p>Resta-me sugerir à Pordata que acrescente mais informação relevante, para que se torne num portal verdadeiramente interessante e completo. É inadmissível que não tenha indicadores como o n.º de pessoas que pedem sandes de queijo com manteiga por cada 100 habitantes, o n.º de calças de gangas per capita ou o n.º de habitantes que conhecem pessoalmente o Capitão Iglo em percentagem do PIB.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:8476 Gonçalve Jarco 2018-06-28T13:09:00 GPS, o pai perfeito 2018-06-28T12:34:47Z 2018-06-28T12:34:47Z <p class="sapomedia images" style="text-align: left;"><a title="https://www.publico.pt/2018/06/27/p3/cronica/gps-o-pai-perfeito" href="https://www.publico.pt/2018/06/27/p3/cronica/gps-o-pai-perfeito-1836067" rel="noopener"><span style="font-size: 10pt;">https://www.publico.pt/2018/06/27/p3/cronica/gps-o-pai-perfeito-1836067</span></a></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="gps.png" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/P080265c1/21082163_P1uEZ.png" alt="gps.png" width="260" height="260" /></p> <p> </p> <p>Gosto do meu GPS, porque nunca se zanga comigo. Nunca perde a compostura, por mais asneira que eu faça, mantém sempre aquele tom quente e imperturbável. Mesmo que eu entre em contramão na auto-estrada, ele aconselha-me plácido: “Volte atrás assim que for possível.”</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Se fosse eu a dar indicações no banco do pendura estava sempre a mandar vir, “Não te metas na faixa da esquerda, que vais sair na próxima!”, “Porque é que não viraste ali? Era ali!” Em menos de nada já estava a azucrinar, a bufar, a esbracejar. Mas o GPS não, é sempre nosso amigo, pedagógico. É o instrutor de condução ideal. Aliás, é o pai ideal. Eu gostava de ser pai como o GPS é meu assistente de viagem. Ele compreende-me, ele é sereno, dá-me sempre uma décima segunda oportunidade de virar à direita. Eu gostava que o GPS me embalasse o sono, nem que fosse com coisas como: “Está a ter um pesadelo, saia na próxima saída.”</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">É na comparação com o GPS que percebo que sou mau pai. Porque à primeira coisa que os meus filhos fazem mal, ou que demoram muito a fazer, só me apetece fazer por eles. Eu sei que não devia ficar irritado, mas porra aquilo fazia-se em dez segundos e o miúdo está a demorar meia hora! Meia hora para pôr pasta de dentes numa escova. “Porque as crianças não nascem ensinadas e não sei quê.” Mas deviam. Como é possível tanto tempo para lavar os dentes? Não te ensinaram nada no útero, miúdo?! Se eu fosse educador de infância era uma desgraça, acho que fazia tudo em vez das crianças. “Olha, professor!” “Sim, sim, ‘tá bonito, mas o Dia da Mãe é já no domingo. Despacha-te. Dá cá isso!” Sou uma ruína pedagógica.</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Acho que os meus filhos merecem melhor. Merecem champô de coco com óleo de amêndoas. Não, não era isso que eu queria dizer. Desculpem a divagação cerebral. Em vez de nos terem como pais, deviam ter um pai GPS e uma mãe GPS, que quando eles começassem à briga pela milésima vez dissessem apenas: “Por favor, não briguem.” E que se limitassem a repetir incessantemente essa frase naquele tom calmo característico “Por favor, não briguem. Por favor, não briguem. Por favor, não briguem. Por favor, não briguem.” Até os ouvidos deles começarem a sangrar docemente com o massacre verbal e eles pararem de vez. Porque se as crianças vencem pelo cansaço, o GPS vence muito mais. É muito sereno, mas não descansa enquanto não virarmos à direita. O ditado “teimoso que nem um burro” devia mudar-se para “teimoso que nem um GPS.”</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Dava-me jeito esta persistência zen do GPS. É isso que eu invejo nele. Não sei se a ideia da inteligência artificial passa por criar robôs ou vozes computorizadas mais humanas: que riam, que chorem baba e ranho, que desesperem com o trânsito na VCI ou na recta dos Comandos. Mas por favor não façam isso. A magia do actual GPS é o seu robótico bom-senso. A sua inconsciente humanidade. Tudo o que vier a mais é mau. Já está humano q. b.</p> <p class="Standard"> </p> <p class="Standard">Eu é que devia robotizar-me um pouco. Sinto que podemos aprender umas coisas com a inteligência artificial. Como uma troca de culturas. Desde que tenho o GPS que, em momentos de irritação parental, penso: “O que faria o GPS no meu lugar?” E experimento a técnica de repetição sem exaltação. É claro que ao fim da terceira repetição já perdi a paciência. Mas o GPS tornou-se uma referência para mim. Ele é o pai eternamente calmo e compreensivo que eu nunca serei. Especialmente se um dia os meus filhos não conseguirem virar à direita.</p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"> </p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:8382 Gonçalve Jarco 2018-04-17T15:13:00 Particularidades de um hotel com mutas estrelas 2018-04-17T14:18:51Z 2018-04-17T14:18:51Z <p><span style="font-size: 10pt;"><em><a href="http://p3.publico.pt/vicios/em-transito/25914/particularidades-de-um-hotel-com-mutas-estrelas" rel="noopener">http://p3.publico.pt/vicios/em-transito/25914/particularidades-de-um-hotel-com-mutas-estrelas</a></em></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="particularidades hotel.png" src="https://c2.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Ba509ede1/20980189_H2UId.png" alt="particularidades hotel.png" width="500" height="333" /></p> <p> </p> <p>Estive num hotel com <em>mutas</em> estrelas e eis as particularidades que lhe encontrei:</p> <p> </p> <p><strong>Abertura de cama </strong></p> <p>Pelo nome podia ser uma jogada de xadrez, mas não é. Consiste numa pessoa que se desloca de propósito a nosso quarto para fazer pequena dobra no lençol de cima, facilitando a entrada de pessoas labregas no leito. E consiste ainda em colocar um panito no chão de cada lado da cama de casal, que mais parece um individual de mesa trabalhado, para que o belo do hóspede não pise o super fofo e imaculado tapete, não vá dar-se o trágico contacto do seu régio pezinho com um miniborboto.</p> <p> </p> <p><strong>Os guardiões do leite</strong></p> <p>O bufete (palavra claramente preferível a buffet ou bufê) de pequeno-almoço é generoso. Mas os empregados do bufete são estranhamente ciosos do jarro de leite. Levam a mal se nos quisermos servir do precioso líquido com nossas próprias mãos. Eles é que são os guardiões do leite. Por duas ou três vezes cometi a heresia de me servir e fui completamente crivado de olhares fulminantes. Julguei que ia desmaiar. </p> <p>Nestes lugares não podemos extravasar a nossa qualidade de calaceiros profissionais e tentar passar por pessoas normais. Ou bem que somos porcos burgueses ou bem que somos <em>criadage</em>. Não há sociedades do séc. XXI. Não há meios-termos. Se queremos brincar ao séc. XIX temos de ir até ao fim. É justo. Expressões como “Queres leite? Serve-te!” passam neste universo paralelo a “Queres leite? Eu sirvo-te, ó palhaço!” O “ó palhaço” não é dito, mas está implícito no olhar.</p> <p> </p> <p><strong>A palermice do spa</strong></p> <p>Hoje em dia, hotel de jeito que é hotel de jeito tem de ter um spa. Eu termas ainda percebo, que sempre se aligeira uma artrite reumatóide ou um valente ataque de gatos nos brônquios. Agora o spa é pura palermice. Não digo que não seja agradável levar com vigorosos jactos de água no lombo, como se quiséssemos relaxar à metralhadora. Mas perante tamanho caudal a jorrar, não consigo conter o merceeiro que há em mim. Só consigo pensar: “Quantas descargas de autoclismo é que estão aqui? Esta malta não se cuide não, que ainda apanha uma surpresa na conta da água.”</p> <p> </p> <p>A sauna é um braseiro que não se pode. Fico lá dois segundos e tenho a sensação que já levo reservas de calor para o resto da vida. Sair cá para fora é um alívio. Dá vontade de avisar os outros “Não entrem lá dentro! Está um calor horrível!” E o banho turco ainda é pior. Ao calor insuportável junta-se uma fumarada asfixiante. Parece que estamos a assar no forno. Se eu quiser ter uma ideia do que sofre uma dourada ou um peru no forno meto-me no banho turco. É a minha forma de criar empatia com os animais que como.</p> <p> </p> <p>Acho que o melhor do spa é que podemos andar de robe pelo hotel. Temos licença para <em>robar</em>. É um fenómeno curioso nestes hotéis chiques, há muita gente aperaltada, bem vestida, algumas de casacos de peles, e de repente vêem-se lá uns bacanos a passear de roupão e chinelas na descontra.</p> <p>Em casa temos pudor em abrir a porta de roupão, mas aqui a malta passeia-se de robe turco como se estivesse na rua a caminho de mais uma jornada de trabalho. Acho muito bem. Sou todo a favor desta prática extremamente fofa e confortável. Mas é preciso perceber que tem um custo de palermice associado.</p> <p> </p> <p><strong>O estacionamento do veículo</strong></p> <p>Eis a suprema labreguice. Nestes sítios há pessoas que estacionam o carro por nós. É incrível, mas é verdade! E quando está um frio de rachar sabe que nem ginjas. É daqueles casos em que damos graças por estarmos instalados em Downton Abbey.</p> <p> </p> <p>Mal parámos o carro à porta daquele antigo palácio aparece-nos à frente um tipo de casacão, cabelo à escovinha e auricular no ouvido, qual paquete do KGB. Por momentos pensei que ia prender-nos, mas não, só queria as chaves da viatura. Sim, porque nestes sítios de alto coturno não se diz “carro”, diz-se “o veículo” ou “a viatura”. “Carro” é muito baixo estrato. Pelo jargão, parece que estamos sempre a falar com polícias. Pelo sim, pelo não, nunca mais larguei os documentos da viatura, nem no banho turco.</p> <p> </p> <p> </p> <p>O perigo destes sítios é que depressa nos habituamos ao bem-bom. O fenómeno de aburguesamento é muito rápido. Ao cabo de três dias já nos transformámos em gordos latifundiários, a quem só falta o mordomo para arrancar as botas. O que vale é que o feitiço se quebra mal transpomos a porta do palácio encantado e tanto nós como o carro nos convertemos novamente em abóboras. Ao mesmo tempo, não foi sem alívio que saí dali, porque aquele paquete do KGB já me estava a provocar calafrios. Ainda dei por mim a espreitar pelo retrovisor, para ver se ele não vinha atrás de nós na sua viatura.</p> <p></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:8131 Gonçalve Jarco 2018-04-05T21:33:00 Uma freira dentro de mim 2018-04-05T20:47:00Z 2018-04-05T20:47:00Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="http://p3.publico.pt/vicios/gula/25825/uma-freira-dentro-de-mim" rel="noopener">http://p3.publico.pt/vicios/gula/25825/uma-freira-dentro-de-mim</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Irmã Lúcia.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B071447ac/20964981_8Whl1.jpeg" alt="Irmã Lúcia.jpg" width="387" height="226" /></p> <p> </p> <p>Só se ouve falar de comida saudável e ronhonhó, de não abusar dos açúcares, mas as pastelarias transpiram saúde. Só a Padaria Portuguesa já deve ter aberto umas quatro sucursais no Catujal.</p> <p> </p> <p>E eu acho que a culpa da euforia pasteleira, que varre o país de há muito a esta parte, é das freiras, que tiveram a bela ideia de massificar os doces ao longo de séculos. Porquê? Porque não tinham mais nada para fazer. O passatempo delas era converter toda a energia sexual reprimida em pastéis de Tentúgal. E essa panca açucareira alastrou-se aos poucos a toda a população portuguesa. De tal maneira, que acho que se infiltrou nos genes e neste momento todos temos uma freira dentro de nós. Uma freira que não nos larga e nos empurra para as pastelarias. Ela suspira-nos ao ouvido: “Que mal tem um pastelinho de nata? Que mal tem um jesuíta?”</p> <p> </p> <p>Eu digo-te que mal tem um jesuíta, sacarina irmã. O mal é que o meu metabolismo desistiu de mim. Até há bem pouco tempo trucidava tudo o que lhe impingia, com uma paciência maternal de betoneira. Mas agora que atingiu a meia-idade fartou-se. Está velho e cansado. Vira-se para mim e diz-me “Se queres comer doces estás por tua conta.” Deixou-me à minha mercê e à mercê das pastelarias. O que é muito perigoso. Tem tudo para correr mal.</p> <p> </p> <p>Mesmo que eu queira dar uma de saudável numa pastelaria não é fácil. Para encontrar uma sandes tenho de me esforçar. Até que as vejo, apertadas, num cantinho. E muitas vezes até as sandes pingam gordura, da de omelete à de carne assada. Mas espera, há esperança, têm alface. Aquelas folhas de alface em que percebemos que houve um esmero, houve todo um cuidado em seleccionar as folhas mais podres à face da Terra. Com um castanhinho que desponta aqui e ali, escolhido com amor. Como um anúncio do Pingo Doce<em>, </em>com aquela voz quente no altifalante: “Seleccionámos as folhas de alface mais podres para si.”</p> <p> </p> <p>É por isso que defendo a criminalização das pastelarias. Isso ou a interrupção voluntária das mesmas, não sei. Porque as pastelarias são obscenas. São antros de tentação. Abaixo as pastelarias! Por outro lado, é bom saber que há tanta obscenidade por aí. Que não somos assim tão puritanos. As pastelarias são um grito de liberdade. Vivam as pastelarias! É uma relação amor-ódio que eu tenho. O meu medo é que este grito de liberdade se transforme num grito de obesidade.</p> <p> </p> <p>Porque não tarda fico gordo e careca, o pacote perfeito. Por enquanto, posso não parecer obeso. Mas quando comecei a perder cabelo também não parecia careca. Se me saiu na rifa uma alopecia galopante, segundo sentenciou o doutor, quem me diz que não sofro também de obesidade galopante? Rai’s partam as freiras, mais a sua febre boleira ancestral! Às vezes só me apetece esganá-las. Sim, porque aquelas fofas e incansáveis sorores eram verdadeiras máquinas de fazer bolos, segundo comprovo no livro “Doçaria dos Conventos de Portugal” de Alfredo Saramago e Manuel Fialho. Aquilo eram doces para todos os gostos: Alfinetes de Santa Clara, morcelas doces de S. Bernardo, pitos de Santa Luzia, bolo de Santo Alberto, bolo de Santo Agostinho, bolo de Santa Escolástica, bolo de Santa Madre que o Pariu. Aposto que tiveram de inventar mais santos só para as freiras fazerem mais bolos. A certa altura os conventos eram autênticas indústrias pasteleiras, de fazer inveja à Dan Cake. Com sucursais por todo o continente e ilhas. Era em Fiães e em Tibães, era em Belém e em Santarém, era em Elvas e em Sandelgas, era em todo o lado. Aquelas chaminés carburavam mais do que a refinaria da Petrogal. Só que a cheirar a bolos.</p> <p><strong> </strong></p> <p>Se calhar, nos casos mais graves, naqueles dias em que sei que a mínima ingestão de bolos se vai traduzir automaticamente em enchimento do pneu corporal, precisava de um padre à porta da pastelaria, para me perguntar: “Renuncias a um pastel de nata?”, “Renuncias a um croissant com doce de ovos?”, tal como perguntam se as pessoas renunciam a Satanás nos baptizados. Só que renunciar a Satanás é fácil, mas a um croissant com doce de ovos, isso sim, é que é uma provação.</p> <p> </p> <p>Seja. Se querem abrir mais quatro pastelarias na minha esquina ou no Catujal, não me importo. Ninguém tem culpa do meu abandono metabólico. Nem me importo de ter uma freira dentro de mim. Até gosto de freiras. Sempre me trataram bem e simpatizo com pinguins encapuçados. A única coisa que não me apetecia era transformar-me num abade de Priscos.</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:7730 Gonçalve Jarco 2018-03-28T00:32:00 O filet mignon da parentalidade 2018-03-27T23:35:36Z 2018-03-28T12:18:04Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/25781/o-filet-mignon-da-parentalidade" rel="noopener">http://p3.publico.pt/actualidade/sociedade/25781/o-filet-mignon-da-parentalidade</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="kid_unsplash.png" src="https://c7.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B41099f4c/20950764_nNs6V.png" alt="kid_unsplash.png" width="500" height="333" /></p> <p> </p> <p>Cada vez gosto mais de ser pai. Porquê? Porque os meus filhos me dão cada vez menos trabalho. Pode dizer-se que o meu amor parental cresce na mesma proporção do meu descanso parental.</p> <p> </p> <p>Ao que me dizem, estou a atravessar o <em>filet mignon</em> da parentalidade. É uma altura que coincide mais ou menos com a escola primária. Nesta fase, as crianças ainda são palermas o suficiente para nos idolatrarem e já não reagem à mera sugestão de vestirem o pijama a espernear e a guinchar como um porco na matança. Já passaram a turbulência trabalhosa e parva dos primeiros anos, repletos de logística e birras, e atingem agora uma etapa aparentemente calma. Da perspectiva do copo meio vazio, não é que as criancinhas tenham atingido a maturidade. Estão simplesmente a estagiar para se tornarem ainda mais parvas. Para atingirem o grau de super-guerreiros da irritação parental. Quando vejo os meus filhos a cogitar imagino-os a desenvolver armas, como quem desenvolve arsenal nuclear, para nos dar cabo da paciência de forma mais refinada daqui a uns anos.</p> <p> </p> <p>Já ouço falar dessa fase ameaçadora que é a adolescência. Dizem-me “aproveita agora!”, como quem nos aconselha a acumular mantimentos e treinar a musculatura, antes de enfrentar o dragão no átrio da montanha. Há mesmo quem diga que já tem filhos de 7 anos numa fase pré-adolescente, com tiques de desprezo filial. Criaturas que batem com portas e mostram uma carranca de boi enfadado. São pais que não tiveram tempo para usufruir de qualquer <em>filet mignon</em> ou sequer de um mísero bife do pojadouro. É tudo nervo na parentalidade.</p> <p> </p> <p>Os mitos e lendas que rodeiam a adolescência são tais que parece que, ao pé dos adolescentes, as crianças de 6 anos são mestres orientais de lucidez e sabedoria. De repente, um simples petiz de 13 anos, frágil e inseguro, já se transformou num ogre borbulhento de 7 metros, que come miolos de pais ao pequeno-almoço.</p> <p> </p> <p>Enquanto os meus filhos não atingem esse patamar mitológico de Adamastores parentais, vou aproveitar para gozar este mar de rosas momentâneo, que comecei a vislumbrar quando o meu filho mais velho tinha 5 anos. Mal podia acreditar, depois de anos de guerrilha constante com aquele minorca endemoninhado, que chegou a ter surtos birrentos em que batia com a cabeça nas paredes, parecia que de repente as FARC, as brigadas assassinas da Colômbia, tinham deposto as armas. Estava mais calmo e até parecia que já ouvia o que eu dizia. E sem eu ter de fazer nada, que é o mais extraordinário. Não foi preciso nenhum acordo de paz, nada. Foi só deixar o tempo passar. Um autêntico milagre. Que todos os conflitos mundiais se resolvessem assim.</p> <p><strong> </strong></p> <p>Quer-me parecer que só aos 5 ou 6 anos é que nos transformamos em pessoas ou em seres minimamente racionais. Até lá os pais estão a criar chimpanzés. Se calhar as crianças já deviam nascer com 6 anos de idade. Porque vinham num formato muito mais amigo do utilizador. Enquanto a ciência não se aperfeiçoa a esse ponto, se puderem adoptem logo uma criança de 6 anos. Eu estou até a pensar montar um negócio de adopção de crianças dessa idade chamado “Crianças chave-na-mão”. Por isso, se estiverem interessados, falem comigo. Até já tenho slogan: “Parentalidade com menos ralação, Crianças chave-na-mão.”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:7668 Gonçalve Jarco 2018-03-23T19:40:00 Belas passagens da literatura com emojis 2018-03-23T20:45:39Z 2018-04-12T16:07:10Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174906679972988" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174906679972988</a></span></p> <p><span style="font-size: 10pt;">(Dica da semana: na página do Público Vida&Estilo carregue em "Ctrl +" e "Ctrl -" para uma experiência radical.)</span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="emoticons.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bea081231/20944386_iifey.jpeg" alt="emoticons.jpg" width="460" height="302" /></p> <p> </p> <p>Foram descobertos mais escritos na arca de Fernando Pessoa. Desta feita com <em>emojis*. </em>Pessoa era realmente um génio. Já usava <em>emojis</em> num tempo em que não havia computadores pessoais, nem sequer <em>emojis</em>.</p> <p> </p> <p>Se havia eram um ou dois rabiscos primitivos. Mas Pessoa já usava <em>emojis</em> do Gmail e afins. Os textos não são inéditos, mas é inédita esta versão dos mesmos. Muitos são excertos do “Livro do Desassossego”, do heterónimo Bernardo Soares, dos quais deixo alguns exemplos... (<a href="https://www.facebook.com/goncalo.puga.7/posts/10153015384836480" rel="noopener">por aqui</a>)</p> <p>* <span style="font-size: 8pt;">Chiiiu. Não digam a ninguém, mas no <a href="https://www.facebook.com/goncalo.puga.7/posts/10153015384836480" rel="noopener">texto original</a> está escrito "emoticons". Parece que o correcto é "emojis". Aparentemente são cenas diferentes e tal. Eu corrigi aqui de forma muito subtil.</span></p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:7168 Gonçalve Jarco 2018-03-23T17:27:00 Personal Tirano 2018-03-23T17:31:51Z 2018-04-12T15:34:07Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183965595733763" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183965595733763</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="tirano.jpg" src="https://c10.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Be5072713/20943920_fcpMz.jpeg" alt="tirano.jpg" width="446" height="305" /></p> <p> </p> <p>Por vezes penso que devia contratar um tirano. Um ditador pessoal que me disciplinasse a vida. Alguém que me dissesse: «Vais parar de navegar na Internet e voltar imediatamente ao trabalho!» «Mas, sr. tirano, eu preciso de saber que notícias importantes tem “A Bola” para mim hoje!» «Vais parar e é já!»</p> <p> </p> <p>Ou quando olho para a minha barriga e constato que devia fazer abdominais, porque ela está rapidamente a transformar-se num pudim. Mas não faço nada, porque não tenho paciência. E para compensar como um chocolate. E eu bem queria não comer chocolates, principalmente depois de jantar. Mas logo a seguir como outro. Enquanto penso: “Com tanto chocolate à venda nos supermercados, se alguém não o comer, ele estraga-se.”</p> <p> </p> <p>É lastimável, eu sei. Por isso é que acho que um pouco de fascismo podia ajudar-me a organizar a vida. Há quem tenha um <em>personal trainer</em>, eu teria um <em>personal</em> tirano. Sou da opinião que um ditador, tal como a energia atómica, se for bem utilizado, pode trazer excelentes benefícios. Hitler, por exemplo, passou à História como alguém com péssima reputação, quando podia ter sido um óptimo ditador pessoal. A meu ver, o problema dos ditadores é que se têm dedicado demasiado à política e pouco à área da ginástica e do bem-estar.</p> <p> </p> <p>Se Hitler desistisse dessas parvoíces de invadir a Polónia e enveredasse pela carreira de <em>personal </em>tirano teria certamente excelentes credenciais para mostrar. Já estou a imaginar o seu cartão de apresentação: “Se consegui mobilizar uma nação inteira, imagine o que posso fazer por si. Já trabalhei no Holmes Place das Amoreiras e de Cascais e nas melhores salas de espectáculos de Berlim, sempre com excelentes resultados.”</p> <p> </p> <p>E para comprovar a competência do ditador teríamos os inevitáveis testemunhos: “O Adolfo é impecável, nunca nos deixa relaxar. Quando começa a perceber que estamos a abrandar o ritmo aponta-nos com aquele cano da pistola que nos faz ir buscar energias onde não julgávamos possível. É um profissional muito qualificado.”</p> <p> </p> <p>O meu único receio é que o ditador se avarie, porque as pessoas também se avariam, e em vez de dizer “Tens de fazer 50 abdominais!”, me diga coisas como: “Tens de empenhar um anel de rubi para me levares ao concerto que vai haver no Rivoli!” “O quê, tirano? Isso não faz sentido nenhum! Tiraste isso de uma canção, não foi?” “Toca a andar!” E depois ainda dou por mim a fazer estas parvoíces, porque estou nas mãos daquele tirano, que não tem outro nome.</p> <p> </p> <p>É por essas e por outras que ainda tenho reticências em adquirir os serviços de um ditador. Mas, no seu caso, se é daquelas pessoas que diz “Isto só lá vai com um Salazar!”, não hesite. Chegou finalmente a sua oportunidade. Quem sabe se não existe já uma empresa que venda este tipo de serviços, com um <em>slogan</em> do género: “Precisa de alguém que lhe discipline a vida? Nós levamos a ditadura até si!”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:7053 Gonçalve Jarco 2018-03-23T17:19:00 A sesta, esse fenómeno de vanguarda 2018-03-23T17:27:04Z 2018-04-12T15:43:43Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183972495733073" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183972495733073</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="sesta.jpg" src="https://c1.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bac1438f5/20943883_r4kjI.jpeg" alt="sesta.jpg" width="460" height="305" /></p> <p> </p> <p>A sesta está na moda. Que o digam a Google, a Apple e outras empresas armadas em sofisticadas, que arranjaram cápsulas-cama para os funcionários dormitarem. Mas não só. Já várias empresas perceberam no mundo – mesmo em países sem grande tradição de sesta – que a bem da exploração da classe operária há que pôr os trabalhadores a dormir.</p> <p> </p> <p>Não é difícil perceber porquê, a sesta tem algo de poderoso, de mágico. Só quem nunca dormiu uma bela soneca é que não percebe. É daqueles fenómenos que ainda provoca o meu mais sincero embasbacamento. Porque mesmo uma pequena <em>cochiladela</em> é capaz de refrescar a mente e o corpo de forma milagrosa. Quase como carregar no botão “refresh”. Numa escala mais reduzida, é uma espécie de poção de Astérix, porque se fica de repente com uma energia que não se sabe de onde vem.</p> <p> </p> <p>Está provado e mais que provado que mesmo 5 minutos de sesta podem fazer maravilhas por uma pessoa. Por investigações de universidades conhecidas e menos conhecidas. Ou até da NASA. E ninguém se atreve a questionar a NASA, porque isto é gente que atira com pessoas para o espaço e elas regressam – pelo menos na maioria dos casos. Aliás, o <em>slogan</em> deles devia ser: “NASA, somos um excelente bumerangue de pessoas.” Conclui-se que a sesta aumenta a capacidade de aprendizagem, a criatividade, a produtividade ou mesmo a capacidade de ir à discoteca.</p> <p> </p> <p>Não percebo porque é que em Portugal, país com tradição neste departamento, ainda se olha com desdém ou condescendência para esta prática. Eu já por várias vezes sofri violentos ataques de soneira em pleno dia e se não fosse a sesta não teria sobrevivido. Há alturas em que não tenho outra solução, senão accionar a soneca de emergência. Seja na estrada, no trabalho ou no cinema. Neste último caso, ferrar no sono uns minutos é a única alternativa a ver um filme inteiro em regime de <em>zombie</em>, num misto de vultos e ecos assustadores, como se estivesse com alucinações.</p> <p> </p> <p>E se fazer uma pausa na estrada é compreendido e mais do que recomendado, no trabalho isso ainda não acontece. Porquê? Cabecear ao volante é perigoso, mas cabecear no local de trabalho não é menos. Além dos acidentes laborais, podem ocorrer graves desastres de produtividade. De que é que os sindicatos estão à espera para defender este direito do trabalhador? E os patrões para implementá-lo? Já vai sendo hora de ouvir nas notícias: “A CGTP e a UGT reuniram-se esta tarde com as confederações patronais para acertar os termos de uma sestinha de 10 minutos.”</p> <p> </p> <p>Urge abraçar de vez este hábito em Portugal. A cafeína está sobrevalorizada na nossa sociedade. O problema é que dormir não parece ter muito <em>glamour</em>. Se calhar, para algumas pessoas, devia-se vender a ideia da sesta como um estimulante ou mesmo uma droga. E talvez assim as pessoas “dessem” mais na sesta. “Vou só ali dar na sesta. Não digas a ninguém.” “E se te apanham?” “Eu sei, mas ouve, isto dá-te uma pica<em>...</em>” Não se pode é abusar, como é natural, deste tipo de coisas ilícitas, porque pode dar ressaca. Não ultrapasse a meia hora de consumo, a não ser que seja um profissional experimentado da soneca ou tenha um lado suicida.</p> <p> </p> <p>Não sei se a culpa do actual descrédito da sesta é da Revolução Industrial ou da fábula da Lebre e da Tartaruga, em que a primeira se trama por bater uma sorna. Pouco importa. O que importa é que não pode continuar assim. Caros patrões, cépticos e detractores da sesta em geral, se é o capitalismo de vanguarda ou a NASA que vos convence, não sei. Mas espero que algo vos convença. Porque quando a NASA e os alentejanos estão de acordo é sinal que algo de importante se passa. Se calhar até deviam emitir um comunicado conjunto – “Comunicado da NASA e dos alentejanos: Pessoas, durmam a sesta. Desde que não se ultrapassem os 20 minutos, meia hora, está tudo bem. Diz que até pode trazer vantagens nos negócios e nas idas à discoteca.”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:6754 Gonçalve Jarco 2018-03-23T17:04:00 A Lista Vermelha das palavras em vias de extinção 2018-03-23T17:14:02Z 2018-04-12T15:45:21Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174906053306384" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174906053306384</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="lista vermelha.jpg" src="https://c9.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B5f138f20/20943847_L75c8.jpeg" alt="lista vermelha.jpg" width="458" height="305" /></p> <p> </p> <p>Preocupa-me o desaparecimento de certas palavras. A palavra “labrosta”, por exemplo, vocábulo tão salutar com que a minha mãe chegou a brindar as minhas maneiras à mesa (“És um labrosta!”), sinónimo de pessoa “labrega”, “grosseira”, “rústica”, “campónia” ou “camponesa”, e que raramente se ouve.</p> <p> </p> <p>Proponho que se soltem palavras desusadas por aí, como quem solta animais de cativeiro na natureza, para ver se pegam. Porque é que em vez de uma “sopa camponesa” não podemos ter um “creme de labrosta”? Até soa a coisa de prestígio.</p> <p> </p> <p>Há palavras que se encontram numa situação crítica. Algumas só sobrevivem graças a provérbios ou expressões idiomáticas, que funcionam como última reserva, santuário, onde essas palavras ainda encontram espaço para respirar. Palavras como “albardar” ou “bugalho” estão confinadas a ditados populares como “Albarda-se o burro à vontade do dono” ou “Confundir alhos com bugalhos”. Há que reavivar estas palavras. Nem que seja nos contextos mais improváveis. Se um dos significados de “bugalho” é “conta grande do rosário”, o senhor padre que diga a meio do terço: “Irmãos, vamos agora rezar o bugalho.”</p> <p> </p> <p>Felizmente que ainda ninguém se lembrou de actualizar os provérbios, porque senão seria uma desgraça. Lá se ia um magote de palavras. Além disso, era ridículo. O que é que íamos dizer, “Atafulha-se o porta-bagagens à vontade do dono”? Era uma hecatombe. Não só para as palavras e para os provérbios, como para todo um imaginário antigo, muitas vezes rural, que assim seria varrido da nossa memória. É urgente incentivar a utilização de provérbios e nunca pensar em actualizá-los para coisa palermas como: “Os cães ladram e a autocaravana passa”, “Em casa de informático, Windows XP” (do original “Em casa de ferreiro, espeto de pau”) ou “Ainda a fila vai no Viaduto Duarte Pacheco”, com a respectiva versão para o Norte, “Ainda a fila vai no Nó de Francos” (do original “Ainda a procissão vai no adro”).</p> <p> </p> <p>Talvez devêssemos publicar a Lista Vermelha das Palavras, tal como a UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza) faz com as espécies de animais, plantas e fungos. Classifiquem-se as palavras por ordem decrescente de ameaça de extinção, como “Em Perigo Crítico”, “Em Perigo” ou “Em Cadilhos”, no caso das mais periclitantes. Refira-se, a título de curiosidade, que a antiga designação da categoria “Em Cadilhos” era “Vulnerável”. Mas alterou-se por uma questão de rigor científico, como é, aliás, fácil de comprovar pela frase exemplificativa: “É fundamental proteger o tigre-de-sumatra, por ser uma espécie em perigo crítico, mas também é preciso atenção ao tubarão-branco, que está em cadilhos.”</p> <p> </p> <p>Assim, com base numa análise empírica rigorosa, que respeita os critérios que me deram na real gana, eis alguns exemplos de palavras ameaçadas das várias categorias:</p> <p> </p> <p><strong>Em Perigo Crítico</strong> – Labrosta, alvíssaras, tropa-fandanga</p> <p><strong>Em Perigo</strong> – Calhordas, bambúrrio, abrenúncio, escanifobético</p> <p><strong>Em Cadilhos</strong> – Serigaita, sorrelfa, estroina, pilantra</p> <p> </p> <p>Também pude atestar a raridade de alguns termos pelo corrector ortográfico do processador de texto, que não identifica palavras como “tropa-fandanga”. Sugere-me “contrapropaganda” em troca, porque deve gostar da sonoridade, acha que é parecido. “Ai eles fizeram propaganda? Então nós vamos fazer tropa-fandanga!”</p> <p> </p> <p>Para que se perceba a gravidade da situação de algumas palavras, termino com uma citação de um artigo, originalmente sobre biodiversidade, com uma ligeira modificação da minha parte:</p> <p> </p> <p>«Recentes estudos revelam surpreendentes taxas de declínio ou quase extinção de insultos como “calhordas”, “labrosta” ou “safardana” e confirmam a importância deste tipo de injúrias para as populações. Além disso, e de forma mais ampla, estes estudos demonstram que, se não formos capazes de acabar ou reverter o ritmo da perda de “calhordas”, por exemplo, isso poderá ter consequências dramáticas para os ecossistemas linguísticos ou, pior ainda, poderá significar a opção por insultos desprovidos de interesse.»</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:6513 Gonçalve Jarco 2018-03-23T16:53:00 Os meus oito mandamentos para os empregados de pastelaria 2018-03-23T16:55:51Z 2019-02-05T10:24:35Z <p><span style="font-size: 8pt;"><a href="https://arquivo.pt/wayback/20151120071057/http://lifestyle.publico.pt/vidaemgrandeestilo/343146_os-meus-oito-mandamentos-para-os-empregados-de-pastelaria#" rel="noopener">https://arquivo.pt/wayback/20151120071057/http://lifestyle.publico.pt/vidaemgrandeestilo/343146_os-meus-oito-mandamentos-para-os-empregados-de-pastelaria#</a></span></p> <p><span style="font-size: 8pt;">(uma vez no site, carregue na seta do canto superior direito para minimizar a tralha visual)</span></p> <p><span style="font-size: 8pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174743246655998" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/174743246655998</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="8 mandamentos.jpg" src="https://c5.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B48052586/20943781_bL8u0.jpeg" alt="8 mandamentos.jpg" width="458" height="305" /></p> <p> </p> <p>Em vez de fazer resoluções de ano novo para mim, decidi fazer para os empregados de pastelaria, sob a forma de mandamentos. Ei-los:</p> <p> </p> <p>- NÃO PORÁS MANTEIGA NA SANDES MISTA.</p> <p>Eu sou solidário com a utilização da manteiga, porque também sou um adepto da mesma. Mas se calhar não é preciso besuntar tudo com manteiga. Há que traçar o limite algures. A febre da manteiga é tal que já houve sítios onde tive de dizer: “Queria uma salada de frutas sem manteiga, se faz favor.” Aposto que em todas as pastelarias existe uma pessoa só para barrar manteiga.</p> <p> </p> <p>- NÃO ME FERVERÁS O GALÃO AO PONTO DE NÃO CONSEGUIR TOCAR NO COPO.</p> <p>Para mim pedir um galão não é uma busca de aventura; não é um teste de resistência ao calor. Quando entro na pastelaria não estou à espera de perder falanges ou ficar sem metade do lábio, como quem escala o Evereste. Dá vontade de dizer ao empregado: “Olhe, faça-me o seguinte, este fica já reservado para amanhã; fica a arrefecer. E agora faça-me outro que seja compatível com seres humanos.”</p> <p> </p> <p>A grande paixão platónica da minha vida foi um galão. Recordo-me como se fosse hoje: Eu fervia de desejo pelo galão, ele simplesmente fervia, mas não nos podíamos tocar. Foi doloroso. Nunca mais soube nada dele. Despedimo-nos sem qualquer contacto.</p> <p> </p> <p>- QUANDO PEDIR UMA PASTILHA GORILA OU UMAS PINTAROLAS NÃO ME OBRIGARÁS A REPETI-LO EM VOZ ALTA.</p> <p>Sou um indivíduo trintão, já com sinais de clara decadência, e ter de repetir em voz alta que quero uma pastilha Gorila provoca-me constrangimento. Se me obrigarem a isso acabo por pedir umas Trident, que têm um ar mais adulto, e lá se vai todo o sonho infantil que alimentei até chegar ao balcão.</p> <p> </p> <p>- NUNCA FARÁS SANDES DE FIAMBRE COM FATIAS DE 2 METROS DE ESPESSURA, que mais parece que estou a comer naco de porco no pão. Até pode ser fiambre da perna extra, que a <em>finesse</em> fica toda diluída na espessura.</p> <p> </p> <p>A propósito de “perna extra”, gosto da forma como continuam a utilizar este adjectivo no fiambre, fomentando todo um imaginário de porcos com cinco pernas. Era interessante que existissem mesmo porcos mutantes em abundância. O que significava que ser suinicultor era como jogar na raspadinha, com um pouco de sorte, saía um porco premiado: “Olha, este aqui também tem uma perna extra!” “Que sorte! Já vais ter fiambre de qualidade!”</p> <p> </p> <p>- NÃO ME CORTARÁS O BOLO OU A SANDES AO MEIO SEM EU PEDIR.</p> <p>Detesto que me façam isso. Especialmente se for para comer pelo caminho. Às vezes gostava de ter um braço extra, nem que fosse de porco, para poder segurar na bebida e em duas metades de pão ao mesmo tempo, mas não fui bafejado com essa sorte. E se me fartasse do braço podia sempre dá-lo a alguém, a um maneta, por exemplo: “Toma lá um braço. Sei que precisas.” “Não, deixa estar.” “A sério, fica com ele! É de porco, mas é de boa vontade!”</p> <p>               </p> <p>- NÃO MATARÁS.</p> <p>É sempre bom incluir este. Nunca se sabe a reacção se pagarmos o café com 20 euros.</p> <p> </p> <p>- NÃO ME DARÁS UM GALÃO NORMAL QUANDO PEDIR UM GALÃO CLARO.</p> <p>Quando eu peço um galão claro, por mais mariquinhas que seja, é um galão claro, não é um galão de plena pujança. Aliás, um galão claro já é um abuso. Já sou eu a facilitar. Porque a cafeína provoca reacções de tal forma instantâneas em mim, que o mais correcto seria pedir um galão com três gotas de café medidas com uma pipeta.</p> <p> </p> <p>- NÃO PORÁS O TROCO NO BALCÃO SE EU ESTENDER A MÃO PARA O RECEBER.</p> <p>É a mesma coisa que um padre ver a mão do crente estendida e decidir enfiar-lhe a hóstia na boca sem dizer água vai. “Ah queres na mão? Então toma lá os sacramentos na boca!”</p> <p> </p> <p> </p> <p>É incrível, mas esta coisa de começar as frases por “Não” ou “Nunca” e usar os verbos no futuro do indicativo dá mesmo solenidade às frases. Deve ser por soar tão estranho. Se calhar é esse o truque. Acho que vou passar a falar assim com os meus filhos: “Não cobiçarás o <em>Gormiti</em> do próximo! Nem me deitarás o telemóvel na sanita, rai's parta! Ouviste? Senão irás já para a caminha!”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:6337 Gonçalve Jarco 2018-03-23T16:33:00 Do escritório para o convento 2018-03-23T16:53:12Z 2018-04-12T16:02:26Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183982779065378" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183982779065378</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="Convento.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/Bd7028224/20943774_FcK9v.jpeg" alt="Convento.jpg" width="460" height="305" /></p> <p> </p> <p>Há cada vez menos pessoas a trabalhar no escritório da empresa e cada vez mais a trabalhar em casa. Pelo menos é o que rezam os dados. Há previsões que apontam para que nos EUA, por exemplo, os trabalhadores independentes venham a representar cerca de 40% da força de trabalho em 2020. E eu, como não quero chatices com as previsões, já sou daqueles que trabalham a partir de casa. Coisa que aprecio, mas que admito que tenha as suas desvantagens, como a falta de contacto humano ao fim de algum tempo.</p> <p> </p> <p>Percebo que estou há muito tempo sem ver pessoas quando me ligam às seis da tarde e me perguntam: “Peço desculpa, estava a dormir?” Porque a voz me sai de tal maneira rouca e cavernosa que as pessoas nem hesitam na pergunta. Geralmente respondo com um simples “Não, não estava.” Mas a resposta certa seria: “Peço desculpa, mas é que estou há tantas horas sem contacto humano que tive de usar um grampo para descolar os lábios! Mais cerrada que a minha boca só a gruta do Ali Babá!”</p> <p> </p> <p>Mas sinto que estou realmente a raiar o anti-social quando dou por mim a falar sozinho na rua com alguma frequência. Sou um adepto do solilóquio, ajuda-me a organizar os pensamentos. Aliás, não percebo tanto preconceito contra quem fala sozinho. Parece que é mais bem aceite cuspir para o chão em público do que falar sozinho. Pelo menos vejo mais gente a cuspir para o chão do que a falar sozinha na rua. E verifico que quando alguém manda uma daquelas cuspidelas devidamente sonorizadas de meter medo ao susto, ninguém liga nenhuma, mas se formos apanhados a falar sozinhos na rua lançam-nos um olhar esbugalhado, como quem diz: “Atenção: Louco às duas horas!” No entanto, quando os solilóquios de rua ultrapassam uma determinada frequência, sei que é hora de combinar um almoço ou de ter qualquer tipo de contacto com seres humanos, que não apenas a minha família.</p> <p> </p> <p>É incrível como se podem rapidamente perder aptidões sociais. Quando damos por nós estamos transformados em eremitas urbanos. Não há muito tempo estava a partilhar um espaço de trabalho com amigos e passados uns meses de bem-bom caseiro estou cheio de ferrugem social. Partilhar um apartamento com amigos é talvez a melhor forma de trabalhar. O único problema é que dada a instabilidade do emprego hoje em dia, o corrupio de amigos que dão lugar a amigos, conhecidos ou perfeitos estranhos é tal, que num momento podemos estar rodeados de amigos e no outro de traficantes de droga ou de <em>web designers</em>. Nunca se sabe. Ou então, dada a volatilidade da vida de trabalhador independente, esfuma-se toda a gente e lá se vai o arranjinho. Há vários químicos ilustres que consideram a vida de trabalhador independente mais volátil que o éter.</p> <p> </p> <p>Para colmatar a ausência de pessoas também posso ir trabalhar para o café ou para a biblioteca. Mas o índice de interacção na biblioteca, por exemplo, é muito fraco. É pior do que ter um animal de estimação, porque não dá sequer para fazer festinhas ou atirar um osso às pessoas. “Larga lá o computador, anda! Apanha o osso! Grrrr!” As pessoas da biblioteca nem sequer ronronam. É uma miséria! Não fazem grande companhia.</p> <p> </p> <p>Desde há uns tempos também existe a modalidade de <em>coworking</em>. Mas a palavra faz lembrar vacas. Por isso, quando me perguntam se quero aderir ao <em>coworking</em> fico sempre na dúvida. Contudo, o <em>coworking </em>talvez seja o local ideal para reunir os vários eremitas urbanos. Porque permite que cada um professe o seu mister com algum recato, ao mesmo tempo que possibilita uma certa partilha comunitária, às refeições e não só. No fundo, é como um convento, em que cada monge tem a sua cela, mas também a sua vivência em comunidade. Só que os novos monges dedicam-se ao <em>web design</em> e a outras cenas maradas, em vez de se dedicarem à cena do Jesus e do Deus.</p> <p> </p> <p>Se calhar também se podia fazer bolos e entoar cânticos nos <em>coworks</em>. Faziam-se os chamados doces <em>coworkuais</em>. Os pastéis do <em>cowork</em> ou as barrigas-de-<em>coworker</em>. Uma das vantagens destes novos conventos é que em princípio as pessoas não vão para lá obrigadas. Acho que ninguém é posto num <em>cowork</em> à força. “Portaste-te mal, desgraçaste a família, vais para o <em>cowork</em> de Elvas!” “Não, papá! Tudo menos o <em>cowork</em> de Elvas! Não tem sequer <em>wireless</em>!” “Pois não! Nem máquina do café! Por isso é que vais para lá!”</p> <p> </p> <p>Se esta tendência crescente do <em>coworking</em> continuar, como parece estar a acontecer por todo o mundo, tudo se encaminha para um estilo de vida mais medieval. Seremos uma grande comunidade de monges a recibo verde. E à semelhança dos franciscanos, dominicanos ou beneditinos, serão fundadas várias ordens, a ordem dos arquitectianos (não confundir com a Ordem dos Arquitectos, que não tem carácter religioso), a ordem dos webdesignerianos ou mesmo a dos traficantinos, consoante as especializações de cada espaço. Haverá certamente lugar para uma ordem de pés descalços, tendo em conta as provações a que estão sujeitas as gentes a recibo verde. Ou então não haverá ordens nenhumas e será tudo ao molho e fé em Deus, o que para muita gente será excelente, desde que se possa cantar e comer barrigas-de-<em>coworker</em>.</p> <p> </p> <p>Pode ser que entremos numa nova era tecnológico-medieval. Eu ainda não decidi se entro para o convento, mas enquanto penso no assunto vou ver se convenço as pessoas aqui da biblioteca pelo menos a rebolar no chão. “Vá lá, dá lá uma reboladela. Isso! Vês como rebolas bem? Custa alguma coisa? Agora já podes voltar para o teu jogo de computador.”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:6099 Gonçalve Jarco 2018-03-23T16:28:00 Há que saber distinguir um terapatife de um gigabiltre 2018-03-23T16:33:53Z 2018-04-12T16:05:31Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183984969065159" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183984969065159</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="inumeracia.jpg" src="https://c8.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B6d02d8af/20943762_KTbmZ.jpeg" alt="inumeracia.jpg" width="414" height="305" /></p> <p> </p> <p>Chego à conclusão que sofro de inumeracia. Ou inumerismo, se quiserem. Se bem que inumerismo me soa a ilusionismo. “Senhoras e senhores, respeitável público, vamos agora ficar com um fabuloso espectáculo de inumerismo!” Por isso, prefiro a tradução literal do inglês: inumeracia. Também há quem diga analfabetismo matemático. Mas isso é muito longo, primeiro que a pessoa diga ao que vem já foram abatidas mais não-sei-quantas mil árvores no mundo.</p> <p> </p> <p>Mas, dizia eu, depois deste belo intróito em torno da designação do termo, que sofro desta maleita. Basta-me ler uma notícia de jornal para rapidamente perceber isso. Porque, por mim, o Governo tanto pode construir uma barragem por 3,7 milhões de euros como por 56 mil biliões, que é exactamente a mesma coisa. A partir de 500 mil euros perco qualquer discernimento crítico. A minha visão numérica do mundo fica completamente desfocada. </p> <p> </p> <p>Estou completamente dependente da bondade de estranhos no que toca a operações milionárias. O que se calhar não é boa ideia. No entanto, se alguém me quiser levar à certa por um cêntimo com aqueles preços irritantes terminados em 99 cêntimos, esqueçam! Porque nessa não caio! E considero essas jigajogas económicas imorais! Mas se me disserem: “Já viste, aquela obra do Estado derrapou em mais de 5 mil milhões de euros! Não é incrível?”, eu tento fazer o ar mais indignado que consigo e digo: “Sim, isso parece-me... bastante dinheiro! Não se faz!” Mas falha-me a convicção. Porque não tenho capacidade de medir a minha indignação. Acho que devia haver a disciplina “Milhões” na escola, porque assim talvez não olhasse para estes números astronómicos como boi para palácio.</p> <p> </p> <p>Também não percebo porque ainda não inventaram uma medida comparativa para o dinheiro, como os campos de futebol para a área. É claro que continuo sem fazer ideia do que sejam 1000 campos de futebol de área ardida, mas sempre dá para perceber o enorme desperdício desportivo que vai para aí; a quantidade de campos de futebol que se podiam ter feito e não se fizeram. Para que é que esta gente quer tanta mata? Se calhar as pessoas que fazem incêndios só queriam abrir um espacinho para fazer o seu campo de futebol e depois a coisa descontrolou-se ligeiramente. Afinal, quem faz um churrasco, faz uma futebolada.</p> <p> </p> <p>Se eu algum dia desviar dinheiro, faço questão que seja por muitos e muitos milhões. Ou mesmo triliões, ziliões! Porque, de qualquer maneira, as pessoas não percebem a dimensão da roubalheira. Hão-de sempre dizer “O que este tipo fez é uma roubalheira!” Não há sequer a megarroubalheira ou a gigarroubalheira. Nem sequer se adapta a linguagem a estes tempos de escala milionária.</p> <p> </p> <p>A única expressão superlativada que ouço no jargão económico é “megafraude fiscal”, que nos ajuda a perceber que estamos perante uma roubalheira na ordem dos milhões de euros. Afinal de contas, há que saber distinguir entre os vários patifes. Acho que se deviam adoptar de vez os prefixos do Sistema Internacional de Unidades (SI), porque é preciso perceber que um terapatife, por exemplo, é muito pior que um gigabiltre, são três zeros a mais, é outra ordem de grandeza de malandragem. E os adjectivos e substantivos tinham obrigação de acompanhar estas diferenças. Isso ajuda-nos a situar os problemas.</p> <p> </p> <p>Possivelmente, uma parte da falta de capacidade crítica generalizada para números grandes pode dever-se aos adjectivos e substantivos, que não estão adaptados aos tempos macroeconómicos de hoje. Já foram inventados há muitos anos, num tempo em que a dívida externa era para aí de “dois pintores” ou de “doze contos”, no máximo, e não foram devidamente actualizados. Se calhar deviam estar indexados à inflação. Devia ouvir-se nas notícias: “A qualificação de adjectivos e substantivos sofrerá este ano um agravamento de 0,3%, em linha com a taxa de inflação.”</p> urn:lj:blogs.sapo.pt:atom1:goncalvejarco:5870 Gonçalve Jarco 2018-03-23T16:23:00 O apocalipse do espermatozóide 2018-03-23T16:28:19Z 2018-04-12T16:10:37Z <p><span style="font-size: 10pt;"><a href="https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183986732398316" rel="noopener">https://www.facebook.com/GoncalveJarco/posts/183986732398316</a></span></p> <p class="sapomedia images" style="text-align: center;"><img style="padding: 10px 10px;" title="espermatozóide.jpg" src="https://c6.quickcachr.fotos.sapo.pt/i/B4413d169/20943760_zkIYt.jpeg" alt="espermatozóide.jpg" width="459" height="305" /></p> <p> </p> <p>Por vezes, estou calmamente sentado a ler o jornal e lá vem alguém simpaticamente relembrar-me que estou a perder espermatozóides aos milhões. Os títulos das notícias são qualquer coisa como “Homens sedentários perdem cerca de metade dos espermatozóides”, ou “Contagem de espermatozóides diminui um terço em 20 anos”, ou mesmo “Espermatozóides em vias de extinção?” Até parece que estamos perante o apocalipse do espermatozóide.</p> <p> </p> <p>Quero agradecer desde já aos jornalistas que, com grande desvelo, me informam sobre as últimas na área do esperma. Mas tenho de confessar que não sinto uma necessidade premente de saber como vai o mercado bolsista do espermatozóide: se está a subir, se está a descer... E mesmo que se verifique o dito <em>crash</em> espermatozóide, quer-me parecer, pelo que vou percebendo, que ainda não será um drama de gigantescas proporções. Senão por esta altura já havia anúncios publicitários com o <em>slogan</em>: “Coma não-sei-o-quê. Porque o seu esperma merece.”</p> <p> </p> <p>Acho que não vou desatar a fazer exercício físico de hoje para amanhã por pensar: “Estou a precisar urgentemente de produzir espermatozóides.” No entanto, não se preocupem, caros jornalistas, que já estou bastante sensibilizado para a causa do espermatozóide. E para as múltiplas razões do seu declínio. Desde o problema do sedentarismo às radiações do telemóvel, passando pelos pesticidas na maçã ou no alho-porro. De tal maneira, que às vezes quase tenho medo de me sentar no sofá, a comer fruta, com o telemóvel no bolso, porque sinto que estou a exterminar espermatozóides às pazadas.</p> <p> </p> <p>Graças aos vossos encantadores escritos já estou inclusive desperto para o problema da poluição atmosférica que, segundo um artigo que li, nos devia fazer pensar duas vezes antes de mudarmos do campo para a cidade, dado o impacto dos maus ares no espermatocoiso. Quem sabe se no futuro não veremos alguém a dizer: “Ofereceram-me um excelente emprego em Lisboa, mas tenho de pensar muito bem, porque vou perder muitos espermatozóides.”</p> <p> </p> <p>Tudo parece provocar a diminuição do espermatozóide, possivelmente até brincar com Legos. O meu grande receio é que, se insistirem muito nessas notícias, eu não consiga sentar-me a trabalhar sem pensar: “Quantos espermatozóides matarei hoje?” E que comece a desenvolver uma preocupação obsessiva que me transforme numa espécie de Coelho da Alice, sempre a repetir: “Estou a perder espermatozóides! Estou a perder espermatozóides! Estou a perder espermatozóides!” Ainda vou parar ao consultório do psicoterapeuta para tentar lidar com os meus sentimentos de culpa em relação ao esperma.</p> <p> </p> <p>Por isso, é a bem da minha sanidade mental que vos dirijo um apelo. Se por acaso vos ocorrer candidamente “Deixa-me cá escrever uma notícia sobre o ocaso do espermatozóide!”, pensem que não é bem um tema ligeiro, algo que dispõe bem, é uma notícia de terror. Devia aliás estar nessa secção, se ela existisse. Talvez seja a oportunidade de formarem o caderno “Terror” ao lado da “Política” e da “Economia”. E depois talvez possamos discutir civilizadamente as notícias desta secção: “Já leste o caderno de Terror? Traz uma peça muito interessante sobre a influência dos pesticidas da abóbora-porqueira na redução de espermatozóides.”</p> <p> </p> <p>Na impossibilidade de criar tal caderno, preferia que só me avisassem sobre o declínio em questão quando for considerado comprovadamente catastrófico pelos mais reputados cientistas do esperma. Quando o pobre do espermatozóide já estiver oficialmente com o estatuto de “ameaçado”, como o panda-gigante ou o rinoceronte de Java. Até lá, não levem a mal, mas acho que prefiro saber os resultados da 3ª divisão de futsal série Açores.</p>