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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

CU-CURROO

https://arquivo.pt/wayback/20140927024947/http://lifestyle.publico.pt/vidaemgrandeestilo/338818_cu-curroo 

(uma vez no site, carregue na seta do canto superior direito para minimizar a tralha visual)

pombos.jpg

 

Os pombos já não são bem animais. Os pombos já são pessoas. Porque são os únicos animais que, tal como nós, olham para a natureza e pensam: “‘Tá aqui uma coisa bem feita. Agora só falta o betão.”

 

Os pombos – e refiro-me obviamente aos que vivem num qualquer parapeito urbano perto de si – não precisam das árvores para nada. Aliás, nunca precisaram. O seu equivalente selvagem vive em parapeitos rochosos, junto ao mar. E em boa hora foi trazido para o contacto com os humanos, na sua perspectiva, porque dispõe actualmente nas cidades de excelentes parapeitos – com pavimento liso e uma boa área útil – e a adaptação não podia ter corrido melhor. Aliás, ele já não quer outra coisa. Pão, água e cimento é tudo o que é preciso para o pombo vingar.

 

E os pombos não estão nada contentes com esta moda da reabilitação urbana. Eles querem novos fogos, novas habitações. Eles querem progresso. Querem dinheiros europeus. Querem o Engenheiro Ferreira do Amaral de volta. Ainda hoje se viram uns para os outros e dizem: “Lembras-te do Ferreira do Amaral?” “Bons tempos! Nos anos 90 é que era.” O sonho deles era ver a Terra toda forradinha de cimento, da Antárctida ao Pólo Norte. E não era por qualquer tipo de ambição de colonização ou coisa que o valha. Mas porque acham que ficava bonito. Como quem acha bonito um anão de loiça no quintal.

 

A verdade é que os pombos estão muito desgostosos com a actual crise na construção civil. Aposto que muitas construtoras só sobrevivem porque recebem donativos de pombos. Há pombos que, sem elas perceberem bem como, pousam regularmente nos parapeitos das janelas da Somague e da Mota-Engil com 50 euros no bico, para que o betão nunca pare de rolar nas máquinas. O cu-curroo que emitem quando entregam as notas pode ser traduzido por “agora façam o vosso trabalho”.

 

Se certos placares das obras quisessem ser justos e transparentes, diriam “esta obra foi co-financiada pelo FEDER e por pombos”. Mas isso eles não dizem. Bico calado. Está talvez na altura de investigar o lobby dos pombos.

 

Mas para além da corrupção, há cada vez mais delinquência entre os pombos. No outro dia tinha a janela aberta e ouvi barulho na cozinha. Fui ver. Eram três pombos. Dois estavam às bicadas ao saco de plástico do pão como se não houvesse amanhã. O outro estava a comer batatas fritas. E provavelmente a curtir a cena dos outros dois às bicadas ao plástico, enquanto saboreava as batatas. Estive para lhe perguntar se não queria uma Coca-Cola para acompanhar.

 

O índice de criminalidade “pombalino” atingiu tal magnitude, que há que começar a tomar medidas. Eu sou da opinião que a própria expressão “associação columbófila” devia ser criminalizada. Devia haver notícias do género: “Foram hoje detidos dois indivíduos suspeitos de tráfico de armas e associação columbófila. Os dois suspeitos, com idades compreendidas entre os 8 e os 90 anos, têm já um vasto historial de crime violento e criação de pombos e encontravam-se na posse de pistolas, espingardas e várias sacas de milho.”

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