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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

A churrasqueira lenta

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Conheço uma churrasqueira que tem filas intermináveis à porta. E o incrível é que há outras duas churrasqueiras mesmo ao lado – mesmo, mesmo ao lado –, uma na porta acima e outra na porta abaixo. Mas só a do meio vinga. As outras estão às moscas.

 

O frango da do meio é de facto melhor, mas não é o Santo Graal do churrasco. Por isso pergunto-me se parte do sucesso deles não residirá na lentidão do serviço. Porque isso permite-lhes acumular um mar de clientes rua fora que lhes dá uma aura especial, parecendo que só aquele frango é comestível e o dos outros conduz potencialmente à morte. Eu sei que isto soa a teoria da conspiração, mas acho que esta tem pernas para andar, porque eles conseguiram atingir um verdadeiro profissionalismo lerdo. Vejamos como:

 

O elenco é composto por quatro funcionários. No principal papel temos uma senhora dos seus 60 anos que, apesar de saber que há um ror de gente para atender, fá-lo com todo o tempo do mundo. Corta o frango bem cortadinho e prepara-o com todos os efes-e-erres a ritmo de tartaruga entrevada, enquanto mete conversa com a pessoa que está a atender sobre os filhos, os genros ou os netos do raio que a parta. Depois há dois funcionários que estão de cotovelo na bancada e que vão fazendo umas coisas. Não se sabe bem o quê, umas coisas. Mas estão devidamente fardados de camisa branca e calça cinzenta, como se estivessem preparados para todo o serviço. Acho que o trabalho deles é estar devidamente fardados. E depois temos o escravo que vira os frangos e que realmente trabalha. Mas é a excepção à regra daquela péssima linha de montagem.

 

Eu estava habituado a outras churrasqueiras, cujo funcionamento está nos antípodas desta. Conheço uma que é tão eficaz que mais parece um campo de extermínio de frangos. O cheiro do respectivo Holocausto aviário sente-se a três quilómetros de distância. Eles são tão rápidos que já devem ter “churrascado” pessoas por engano. Aviam clientes às pazadas. Conseguem desbastar uma fila de gente em meia dúzia de minutos. Parece que estão a treinar para as Olimpíadas do Churrasco ou que querem ser contratados pelas melhores churrasqueiras do mundo.

 

Já a supracitada churrasqueira do meio está mais empenhada em bater recordes mundiais de pastelanço. São estratégias tão diferentes que espanta como ambas conseguem ter tanto sucesso. Dava vontade de contratar um antropólogo ou um sociólogo para estudar o comportamento das churrasqueiras.

Contra o apartheid dos parques infantis

https://www.publico.pt/2019/03/01/culto/cronica/apartheid-parques-infantis-1863840

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Há pais que se percebe que vão ao parque infantil em desespero de causa. Precisam de soltar as crianças, como quem solta os cães, enquanto se deixam cair no banco de jardim e tentam recuperar a consciência. Só querem ficar quietos um bocadinho, invisíveis, em posição fetal, de preferência, e até tremem de medo quando ouvem ao longe o terrível chamamento, caracterizado pelo arrastar da última letra: “papááá” ou “mamããã”.

 

Eu já tive os meus momentos de pai fetal no parque infantil, mas por norma consigo estar fora da zona de desespero, embora perfeitamente disponível para ser deixado em paz. No entanto, as solicitações não tardam. É-me pedida ajuda para subir à corda mais difícil, para empurrar o rabo no baloiço, para empurrar o rabo na parede de escalada. Por vezes sinto que a minha única grande tarefa no parque infantil é ser empurrador de rabos.

 

Às vezes os meus filhos pedem-me que suba aos divertimentos com eles e eu penso “Porque não? Entre isso e empurrar traseiros…” Mas nessa altura lembro-me da ameaçadora placa à entrada do parque que diz “Idade: Dos 3 aos 12 anos. Entidade fiscalizadora: ASAE.” E ninguém se quer meter com a ASAE, que deve ser a Gestapo dos parque infantis. Então tento explicar aos catraios: “A sociedade não me deixa subir. E a ASAE também não. Pode haver coimas.” Mas eles fingem que não percebem e estendem-me o braço.

 

Lá acabo por subir, correndo o risco de a avozinha ao meu lado ser fiscal da ASAE. Há quem faça parkour, eu subo a casinhas de madeira e desço escorregas à sorrelfa. São duas formas distintas de sentir a mesma adrenalina. É óbvio que se estiver um forte trânsito – não confundir com Ford Transit – de crianças, não vou lá para cima dar uma de Gulliver, espezinhar a pequenada. Mas se houver boas condições de circulação, arrisco a transgressão. E já percebi que não sou só eu, já vi vários pais em manobras clandestinas e perigosas no parque, como andar de baloiço ou sobe-e-desce.

 

Não percebo este apartheid entre adultos e crianças nos parques infantis, quando hordas de psicólogos, pedagogos e paramilitares nos massacram com a ideia de que é fundamental brincarmos com os nossos filhos. Dizem que liberta oxitocina, plasticina e outras “inas” aconchegantes; que estreita laços, estreita a comunicação, estreita a ligação Belém-Trafaria. Suplicam “Não deixe morrer a criança que há dentro de si”, o que me assusta, porque pode querer dizer que estou grávido e ainda por cima de um bebé em estado crítico.

 

Eu acho que isto dos equipamentos recreativos devia ser ao peso, como no talho. “Este baloiço aguenta até 200 kg de pessoa.” Se o ser humano inventou coisas extraordinárias como o café sem cafeína e as palmilhas Dr. Scholl, tenho a certeza de que também consegue construir escorregas e sobe-e-desces à prova de pais de grande porte.

 

Acho­­­­ que está na altura de defender o superior interesse do adulto no parque infantil. Porque compatível com o outro superior, da criança, numa conjugação de superiores nunca antes vista. Deviam abrir parques com equipamentos multi-idade, para libertar os pais que, como eu, não podem estar sossegados, nem muito interactivos. São pais nem-nem, que vivem neste purgatório de empurradores profissionais, como bolas descoloridas entre as mãos de uma criança. Apelo, por isso, ao fim deste aperreante regime de segregação etária no parque infantil.

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