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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

Pede-se o favor de não limpar a casa de banho

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No restaurante de um clube recreativo, para os lados de Sacavém, vi um papel na porta da casa de banho que dizia:

 “Pede-se o favor de não sujar nem limpar a casa de banho. Deixe-a como encontrou.”

Aquilo não parecia uma casa de banho de um restaurante, parecia o local de um crime.

 

Quem é que se dá ao trabalho de limpar uma casa de banho fora de casa?

Será que há alguém que diz “Olha para esta casa de banho. Deixa-me cá dar uma lixiviadela que este chão não está em condições.”? Entretanto, aparece o amigo: “Então, não vens para a mesa?” “Já vou. Deixa-me só passar Cif Gel nesta retrete, que isto está uma desgraça.”

 

Claro que aquela mensagem pode ser só uma piadola de trazer por casa. De banho. Mas e se não for? (Entra som assustador de filme assustador) Fica a questão.

 

Se calhar foram vítimas do perigoso gangue limpador de lavabos, que já higienizou várias sanitas e lavatórios do município de Loures a sangue frio. Ninguém está a salvo da violência dos seus lava-tudos perfumados. A polícia anda no encalço desta pandilha há anos, mas até agora sem sucesso, porque eles eliminam todas e quaisquer impressões digitais com lixívia Neoblanc Densa+ Harmonias Florais.

Carta ao casal de pandas da minha escola primária

https://www.publico.pt/2019/02/13/culto/cronica/carta-casal-pandas-escola-primaria-1861653#gs.RquBgfez

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Caros Sérgio e Rita,

 

Ainda me lembro do dia em que vos encostámos aos muros da escola, como caçadores furtivos a dois animais assustados. Queríamos à viva força que vocês se beijassem ali ao pé dos pedregulhos, ao fundo do campo de futebol. Vocês queriam privacidade, mas não estava fácil, uma vez que, para onde quer que fossem, a turma inteira ia atrás a gritar “Beija, beija!” Se vos tivéssemos perseguido em caravana de jipes descapotáveis, com holofotes apontados e binóculos ao ombro, ao estilo safari, não teria sido pior. Ainda bem que vocês não tinham um corno na ponta do nariz, senão estavam tramados.

 

O vosso olhar de semi-pânico era uma pista de que algo não estava bem. Mas nós continuávamos, porque estávamos eufóricos, descontrolados. Vocês eram o mais próximo que tínhamos visto de um casal de namorados a sério e achávamos que iam satisfazer toda a nossa curiosidade no que ao amor diz respeito: “O que é isso de ser namorado? É dar a mão, beijar? Como? E para quê?”

 

Hoje em dia, olho para o meu filho e vejo que podia ter resolvido estas questões de uma forma prática, porque ele com 7 anos disse-me que tinha quatro namoradas na escola e eu perguntei-lhe “Ai é? Há quatro meninas que gostam de ti?” “Não sei.” “Não sabes?” “Não.” E a conversa acabou aqui, porque percebi que ele tinha passado directamente da fase dos amigos imaginários para a das namoradas imaginárias e vivia bem assim. Era um pouco indiferente se tinha quatro ou zero namoradas, porque o importante era jogar à bola e correr à volta da escola como um hamster numa roda. Mas eu não tinha estas soluções. Possivelmente porque era estúpido, pouco criativo. Queria respostas.

 

E vocês eram as nossas cobaias amorosas. Por outro lado, estávamos genuinamente a torcer por vocês. Queríamos muito que a vossa relação desse certo. Porque vocês tinham tudo para dar certo.

 

Tu, Sérgio, eras o mais alto da turma, o que para mim era o mais parecido com um adulto, logo o mais capaz de ter um relacionamento como deve ser. E tu, Rita, eras a rapariga gira e despachada, que usava calças de fato de treino com estrelas – nada de padrões lisos sensaborões – e às vezes uma fita grossa na cabeça, como aquelas da aeróbica, o que te colocava num patamar de modernidade e desenvoltura muito acima do resto da turma.

 

Tínhamos grandes expectativas para vocês. O vosso plano de vida estava traçado, mesmo que não soubessem. Vocês iam casar e ser felizes para sempre, sem direito a divórcio ou a qualquer desvio a este plano maravilhoso. E para garantir o sucesso do vosso acasalamento estávamos dispostos a dar-vos o nosso apoio incondicional durante 24 horas por dia, se fosse preciso. O que neste caso se traduzia por uma feroz turbamulta de bibe azul a encurralar-vos junto à vedação da escola primária – sim, usávamos bibe, lembram-se?

 

Eu sentia-me um bocado mal a fazer aquilo, mas fazia na mesma. Porque era criança e de alguma forma intuía que me era permitido fazer coisas parvas. Apresento-vos desde já as minhas desculpas por qualquer incómodo ou trauma causado.

 

Reconheço que o método de claque de proximidade não era o melhor. Acho que fizemos com vocês o mesmo que se faz com os pandas-gigantes em cativeiro. Como é que os pandas hão-de ter um rancho de crias quando têm meio mundo em cima deles a dizer “Vá, namorem, façam coisas”? Eu também não sei se conseguia acasalar com a torcida dos Super Dragões ou dos No Name Boys à minha volta com palavras de ordem como “Campeões, olé, olé!” ou “Carrega, Benfica!” Se calhar fazia como os pandas e perante os olhares estranhos e câmaras ocultas desatava a mastigar um rebento de bambu.

 

E vocês eram os nossos pandas, Sérgio e Rita. Eram fofos e a vossa vida amorosa estava a ser mais escrutinada do que a dos concorrentes da “Casa dos Segredos”. Talvez fosse pressão a mais, mesmo para os vossos ombros, que pareciam bafejados pela selecção natural. Não sei o que é feito de vocês. Espero que não estejam em cativeiro. Seja como for, é meu desejo profundo que tenham toda a privacidade de que necessitam. E o melhor bambu que a natureza já viu nascer.

O medo inato de espanhóis

https://www.publico.pt/2019/02/04/culto/cronica/medo-inato-espanhois-1860590

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Um dia destes, a minha moça disse-me: “Apetece-me ir ao estrangeiro.” Então fomos a Badajoz.

 

E não se pense que é fácil ir a Badajoz. Há um nervoso miudinho que aflora sempre que transpomos a placa fronteiriça que diz “ESPAÑA”, por mais que visitemos o país vizinho. Não sei se é simples medo do desconhecido ou se guardamos um nervoso miudinho especial só para os espanhóis. Conheço gente que mais depressa vai de Vila Real de Santo António a Valença do Minho do que atravessa a fronteira para Espanha. São pessoas que sofrem de hispanofobia, uma maleita que vai rareando nos nossos dias.

 

Seja como for, acho que todos os portugueses nascem com um certo medo inato de espanhóis, que vai ficando cada vez mais adormecido à medida que crescemos e percebemos que os castelhanos não nos querem invadir. Mas está lá, para as emergências. Deve ser por isso que conservamos um provérbio ou dois a maldizer os espanhóis, como aquele do vento e do casamento, não vão eles armar-se em espertos e atravessar a fronteira do Caia ou de Vilar Formoso com um exército de cavalaria e besteiros.

 

Superada a placa e o respectivo trauma, decidimos dedicar-nos a esse jogo clássico e profícuo que é “Descubra as diferenças entre portugueses e espanhóis”. Porque esta coisa das fronteiras é impressionante. Basta andar meia dúzia de quilómetros para lá de Elvas e já estamos noutro mundo. É quase mágico. De repente ficamos cercados de presunto. Está por todo o lado. Os espanhóis devem ter fontes de presunto. Vão à fonte e enchem os cântaros de presunto. Já sei quem teve a bela ideia das batatas fritas com sabor a presunto. Só podem ter sido.

 

Em Badajoz também desaparecem as sopas. Pelo menos como as conhecemos. Olhamos para a ementa e só vemos uns gaspachos, umas sopas frias, que vêm mesmo a calhar na brioleira de Janeiro. Dá a sensação que os espanhóis vivem como se fosse Verão o ano inteiro. O horário da siesta mantém-se inalterável na época fria. Durante a tarde, nas poucas horas de luz que o Inverno tem para oferecer, não se vê ninguém na rua. Os museus fecham das 14h às 17h30 e durante essas horas parece que a própria cidade fecha para descanso do pessoal habitante.

 

Mas ao anoitecer, ali pela fresca, mesmo muito fresca, começam a aparecer pessoas. E aparecem de repente, de todos os lados. Parece “O regresso dos mortos-vivos”. Não sei se vêm do cemitério ou de casa, mas são aos magotes. Vêm desde famílias com bebés acabados de sair da maternidade até velhotes de cento e tal anos com pneumonia. Sai tudo. Vai tudo para a movida de Badajoz.

 

O pequeno-almoço também é impróprio para portugueses. Não tanto por se comerem churros com chocolate logo pela manhã, o que qualquer nutricionista aconselharia, mas porque acontece mais um estranho fenómeno climatérico. Não há ninguém dentro dos cafés. Estão todos plantados na esplanada, como lagartos ao sol de Inverno. Não sei como aguentam. Eu tentei imitá-los, para me enturmar, e ia-me rebentando o esmalte de dois pré-molares de tanto tiritar. Ou os espanhóis possuem várias camadas de gordura, como as baleias, ou estão programados de forma diferente dos portugueses. Porque nós compreendemos o conceito de Inverno e de bem-bom, transmitido pelo quentinho interior de uma pastelaria. Já a estratégia deles para o Inverno não passa por hibernar, mas por fingir que o frio não existe. Vivem em negação do Inverno.

 

No entanto, Badajoz ainda é uma terra com madeixas de portugalidade, porque qualquer boteco tem bacalhau. São eles claramente a piscar o olho aos portugas, enquanto pensam: “Estes lusitanos são loucos, metem bacalhau em tudo.” E têm razão. Basta dizer que temos um prato chamado “caras de bacalhau”. Ainda ninguém se lembrou de fazer “caras de garoupa” ou “caras de abrótea”, mas com bacalhau vale tudo.

 

Nós portugueses gostamos de embirrar com os espanhóis: Agora que eles perderam a tendência de nos invadir, é porque falam muito alto no restaurante. O ideal para muitos portugueses era ter um telecomando só para espanhóis, para poder baixar-lhes o volume de vez em quando. Ou então devolvê-los a todos à fábrica, para corrigir a anomalia de fabrico ao nível do áudio.

 

Regressar a Portugal é um misto de conforto e nostalgia. Conforto porque ficamos para cá da placa que diz “Portugal” e a salvo dos besteiros inimigos. Nostalgia porque cada vez gosto mais de Espanha e dos espanhóis. Apesar da confusão sazonal que me provocam. E de terem a mania de colocar as tabuletas de estrada que indicam “Portugal” na mesma letra minúscula que usam para as suas cidades de meia tigela, como se fosse igual aceder a um país inteiro ou ir para Oviedo. Pelo menos nós temos a delicadeza de os honrar com maiúsculas em todas as tabuletas que lhes dizem respeito. Tiram-me do sério estes espanhóis.

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