Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

Momentos covid numa loja de construção

Numa loja de materiais de construção, enquanto espero para ser atendido, está um casal no balcão do lado. Fazem perguntas técnicas, sobre a possibilidade de fazerem um projecto ali para a casa deles, até que o homem diz para o empregado de balcão: “Eu acho que nós fomos colegas de infância.” E o outro responde “Sim, eu também estava…” O homem tira a máscara e o empregado também. “Pois, és tu, João!” “Sou! Pois é, és tu!” Empregado sai do balcão, visivelmente emocionado, e diz “Eu sei que vivemos nesta situação, mas tem de ser!” E dá um grande abraço no amigo de infância. O outro corresponde ao abraço. Trocam galhardetes animados sobre a infância. Um deles, quarentão grisalho de barriga avantajada, diz para o outro, careca igualmente quarentão com bela barriga: “Não fomos colegas no Brincalhão?” “Não. Foi no...” Não consegui perceber onde foram colegas, mas pelo menos sei que não foi no Brincalhão.

Nossa Senhora contra todos

Supermercado Miguel Angel ou De la Fuente.jpg

Fui a Espanha. Numa versão medricas, claro está, que é o que se quer. Sinto mais covid-adrenalina a andar no metro de Lisboa agora, com as carruagens bem compostas, do que numa mercearia perdida no meio da serra andaluza onde estive.

 

E esta mercearia na foto acima, também conhecida como Supermercado Miguel Angel, valia muita a pena, porque estava forrada a pósteres da Nuestra Señora del Carmen. Deve ser a padroeira lá do sítio, ou então são grandes fãs dela, porque não havia espaço para mais nenhum tipo de Nossa Senhora. Nem das Dores, nem da Conceição, nem de nada. Só Del Carmen. Aquela mercearia parecia uma versão religiosa das oficinas de mecânico, só que em vez de mulheres despidas havia várias Nuestras Señoras del Carmen em pósteres para todos os gostos. Estes eram os dois mais interessantes, a meu ver.

 

IMG_20200820_133522.jpg

 

No póster da esquerda temos a Nuestra Señora del Carmen montada num barquito ridículo no meio de uma grande tempestade marítima. No centro do cartaz está a aldeia de Grazalema, que dá nome àquela serra, com o seu ar bucólico e indefeso, que a Virgem parece pronta a defender com unhas e dentes. Para enfrentar as ondas enormes e os raios que caem por todo o lado, a Virgem traz uma forte arma de defesa: um candeeiro, na parte da frente da barqueta. Aparentemente Nossa Senhora não precisa de grande coisa para dar cabo de tudo e de todos: “Quantos são?! Eu sou a Virgem Maria e trago um candeeiro! Não brinquem comigo!”

 

 

 

IMG_20200820_133508.jpgNo póster da direita, para não baixar a parada, a Virgem parece disposta a pegar um toiro de caras ou a derrotá-lo com feixes de luz ao estilo Dragon Ball, que sempre é uma arma mais decente. Bem, pega talvez não, uma vez que os espanhóis não têm esse costume nas touradas. Uma coisa é certa, trata-se de uma feliz composição fotográfica, que reúne a Virgem Maria e um toiro, num fundo vermelho, com a legenda “Pasión y devoción”, que não se lê muito bem, uma vez que não consegui tirar uma foto de jeito (raios me partam!). Mas, enfim, quanto ao cartaz, palavras para quê, é um artista espanhol.

Vendo bem, acho que não resisto à heresia de imaginar a Nossa Senhora a pegar um toiro, com os braços bem amarrados nos cornos do bicho, o véu para cima e para baixo aos solavancos sem nunca cair da cabeça, acabando por dominar o animal com a ajuda do Grupo de Forcadas Amadoras das Carmelitas Descalças.

 

Para uma protecção à prova de bala, no caso improvável de a Nuestra Señora del Carmen não ser suficiente, temos uma data de alhos na prateleira, para afastar o mau-olhado ou os vampiros que frequentemente atacam as mercearias em busca de Chocapic.

Coronavida

loja do camilo.jpg

Passo por um tipo na rua que, mal me vê ao longe, se encosta ao máximo a um dos cantos do passeio, preferindo levar com vários arbustos e ramos de árvore nas trombas a passar um milímetro que seja mais perto de mim.

Logo a seguir entro na mercearia e o merceeiro, não só está muito descontraído e sem qualquer protecção a atender as várias pessoas que vão entrando na loja, como decide passar para o outro lado do balcão e entabular conversa comigo a 2 centímetros de distância. Eu, apesar de não me considerar um corona-histérico, recuei um passo como que a dar a entender ao senhor que talvez não fosse a altura ideal para estabelecer uma intimidade cliente/merceeiro. No entanto, acho que ele não percebeu a mensagem subtil, uma vez que continuou do lado de cá do balcão a falar pelos cotovelos e pela boca.

Deus Nosso Senhor me proteja e a ele também, porque é um bom fornecedor de papel higiénico, esse que é aparentemente o verdadeiro e único bem de primeira necessidade do séc. XXI.

Ceroulas para emagrecer

Ceroulas para emagrecer.jpg

Eis um excelente conselho que tirei da agenda ilustrada Mulher 78 da minha sogra. É impressionante como há coisas que se mantêm actuais passados 40 anos. Quem nunca usou umas ceroulas para emagrecer que atire a primeira pedra.

Tudo bate certo neste pequeno excerto, desde a utilidade à estética, passando pelo rigor científico. Nada como umas ceroulas para aumentar a sudação. Porque, como se sabe, perder água é a melhor forma de emagrecer.

Dica: Se tiverem uma tenda de campismo velha, não a deitem fora, porque um dia ainda poderão fazer ceroulas com ela. Pelo menos, a avaliar pelo texto, é uma forte possibilidade.

A versatilidade do papel higiénico

retrete pap hig.jpg

A primeira vez que arranquei um dente – ou melhor, que a minha mãe me arrancou um dente – ele estava preso por um fio. E a minha mãe disse-me: “Chega aqui, vamos tirar esse dente.” Eu fiquei petrificado de medo. Não por causa de todo um imaginário dos dentistas, porque nunca tive esse medo, mas porque achei realmente que, apesar de só estar preso por um fio, aquele fio era sólido. Era tão sólido que só se conseguiria tirar à bruta, talvez até com um alicate, juro que pensei isso; com um puxão que me faria dar um salto de 3 m de dor. E de repente a minha mãe agarrou num bocadinho de papel higiénico, meteu-o com muito jeitinho na boca e já está. Tirou o dente. Não doeu nada. Zero.

 

Nunca mais me esqueci dessa cena. Ficou para sempre gravado em mim o pânico pré-papel higiénico e o maravilhamento pós-papel higiénico, porque afinal era tão fácil. Ficou-me como uma lição de que a vida nem sempre tem de ser assim tão difícil. Pelo menos para tirar dentes. E que o papel higiénico pode servir para arrancar as coisas mais sólidas deste planeta. Por exemplo, podia deitar-se um edifício abaixo com papel higiénico. Era só uma questão de embrulhá-lo com muito jeitinho e já estava. Para quê aquela coisa bruta dos explosivos? Há uma versatilidade no papel higiénico que está claramente desaproveitada.

Restaurante hospitalar

H-T-W-H-06-zi.jpg

 

Há um restaurante vegetariano onde vou de vez em quando que me causa um certo desconforto. E no outro dia percebi porquê. Porque tem um ar demasiado asséptico. A senhora que nos atende ao balcão está de bata branca, luvas de látex e touca na cabeça. Até o rapaz da caixa registadora tem bata branca. Toda a gente ali tem bata branca. Aquilo não parece um restaurante, parece um hospital.

 

E toda aquela brancura faz-me impressão. Sinto que os funcionários tanto podem servir-me um tofu como espetar-me uma injecção de brócolos ou medir-me a tensão vegetal. Só falta um acamado a um canto com soro de chá verde para tornar aquilo mais arrepiante.

 

É compreensível que queiram dar um ar de comida saudável, mas não exageremos. Se o sabor não prestar, bem podem transformar aquilo num centro de saúde que não adianta. O que vale é que a comida é boa. Até pus uma crítica no Tomates a dizer: “Boa comida em ambiente muito hospitalar.” Claro que veio logo um daqueles nazis da língua armado em esperto: “Não querias dizer ambiente hospitaleiro?” Não, pá, queria mesmo dizer o que disse, porque os funcionários do espaço, além de simpáticos, são de facto muito hospitalares.

 

É pela simpatia e qualidade que me vou aguentando por lá. Mas por vezes dá-me vontade de sair dali directamente para um restaurante carnivoriano, todo estercoso – com beatas e escarros no chão como as tascas antigas –, que sirva rojões com batido de porco e mousse de chouriça.

  • Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.