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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

Quando eu era pequeno

Eu sou daquelas pessoas a quem este último ano lhes deu para fazer vídeos. Houve aquelas que fizeram pão, outras fizeram a cama, eu fiz este vídeo. Há quem se melindre com o tema e há quem não goste da palavra "melindrar". Não há muito que possa fazer em relação a ambas as categorias de indivíduos, uma vez que o vídeo já está feito e é muito difícil retirar a palavra "melindrar" do dicionário. Não vou fazer isso. Se quiserem ver o vídeo, é esse aí em baixo. Sim, eu sou esse careca com ar meio pasmado. Um bom para ano para vocês e para os vossos. Pés. Ou outras partes do corpo.

 

Momentos covid numa loja de construção

Numa loja de materiais de construção, enquanto espero para ser atendido, está um casal no balcão do lado. Fazem perguntas técnicas, sobre a possibilidade de fazerem um projecto ali para a casa deles, até que o homem diz para o empregado de balcão: “Eu acho que nós fomos colegas de infância.” E o outro responde “Sim, eu também estava…” O homem tira a máscara e o empregado também. “Pois, és tu, João!” “Sou! Pois é, és tu!” Empregado sai do balcão, visivelmente emocionado, e diz “Eu sei que vivemos nesta situação, mas tem de ser!” E dá um grande abraço no amigo de infância. O outro corresponde ao abraço. Trocam galhardetes animados sobre a infância. Um deles, quarentão grisalho de barriga avantajada, diz para o outro, careca igualmente quarentão com bela barriga: “Não fomos colegas no Brincalhão?” “Não. Foi no...” Não consegui perceber onde foram colegas, mas pelo menos sei que não foi no Brincalhão.

Nossa Senhora contra todos

Supermercado Miguel Angel ou De la Fuente.jpg

Fui a Espanha. Numa versão medricas, claro está, que é o que se quer. Sinto mais covid-adrenalina a andar no metro de Lisboa agora, com as carruagens bem compostas, do que numa mercearia perdida no meio da serra andaluza onde estive.

 

E esta mercearia na foto acima, também conhecida como Supermercado Miguel Angel, valia muito a pena, porque estava forrada a pósteres da Nuestra Señora del Carmen. Deve ser a padroeira lá do sítio, ou então são grandes fãs dela, porque não havia espaço para mais nenhum tipo de Nossa Senhora. Nem das Dores, nem da Conceição, nem de nada. Só Del Carmen. Aquela mercearia parecia uma versão religiosa das oficinas de mecânico, só que em vez de mulheres despidas havia várias Nuestras Señoras del Carmen em pósteres para todos os gostos. Estes eram os dois mais interessantes, a meu ver.

 

IMG_20200820_133522.jpg

 

No póster da esquerda temos a Nuestra Señora del Carmen montada num barquito ridículo no meio de uma grande tempestade marítima. No centro do cartaz está a aldeia de Grazalema, que dá nome àquela serra, com o seu ar bucólico e indefeso, que a Virgem parece pronta a defender com unhas e dentes. Para enfrentar as ondas enormes e os raios que caem por todo o lado, a Virgem traz uma forte arma de defesa: um candeeiro, na parte da frente da barqueta. Aparentemente Nossa Senhora não precisa de grande coisa para dar cabo de tudo e de todos: “Quantos são?! Eu sou a Virgem Maria e trago um candeeiro! Não brinquem comigo!”

 

 

 

IMG_20200820_133508.jpgNo póster da direita, para não baixar a parada, a Virgem parece disposta a pegar um toiro de caras ou a derrotá-lo com feixes de luz ao estilo Dragon Ball, que sempre é uma arma mais decente. Bem, pega talvez não, uma vez que os espanhóis não têm esse costume nas touradas. Uma coisa é certa, trata-se de uma feliz composição fotográfica, que reúne a Virgem Maria e um toiro, num fundo vermelho, com a legenda “Pasión y devoción”, que não se lê muito bem, uma vez que não consegui tirar uma foto de jeito (raios me partam!). Mas, enfim, quanto ao cartaz, palavras para quê, é um artista espanhol.

Vendo bem, acho que não resisto à heresia de imaginar a Nossa Senhora a pegar um toiro, com os braços bem amarrados nos cornos do bicho, o véu para cima e para baixo aos solavancos sem nunca cair da cabeça, acabando por dominar o animal com a ajuda do Grupo de Forcadas Amadoras das Carmelitas Descalças.

 

Para uma protecção à prova de bala, no caso improvável de a Nuestra Señora del Carmen não ser suficiente, temos uma data de alhos na prateleira, para afastar o mau-olhado ou os vampiros que frequentemente atacam as mercearias em busca de Chocapic.

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