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goncalvejarco

Navegador. Trabalhei com figuras de renome, como Infante D. Henrique, Bartolomeu Perestrelo, Tristão Vaz Teixeira, Capitão Iglo, etc.

A alegria de nos chamarem “menino” e outros sintomas de quarentão

https://www.publico.pt/2019/04/05/culto/cronica/alegria-chamarem-menino-sintomas-quarentao-1868106

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- Num restaurante, a empregada de mesa chamou-me “menino” e eu fiquei contente. Ela disse “O menino, o que vai querer?” e uma sensação inesperada de bem-estar me invadiu. Os meus olhos quarentões iluminaram-se e uns calores subiram por mim acima, como os afrontamentos que nunca experimentarei. Senti-me lisonjeado. Pareço a minha mãe, que por volta dos quarenta chegava a casa toda ufana e dizia “A cabeleireira tratou-me por menina, vejam lá!” Eu achava ridículo e pensava “É a minha mãe a tentar lidar com o envelhecimento, coitada.”

 

Agora pelos vistos também gosto. Logo a seguir, a dita empregada de mesa vira-se para o octogenário da mesa ao lado, que lê o Correio da Manhã em alta concentração, letra a letra, possivelmente porque as dioptrias dos óculos garrafais já não são suficientes, e pergunta-lhe: “O menino vai querer café?”

 

“Boa”, pensei, “eu e ele somos igualmente meninos”. Percebi que ela dizia aquilo a todos ou então só a pessoas de certa idade, o que me colocava automaticamente no grupo dos merecedores de tratamento condescendente. Resultado, o que parecia uma linda história de robustecimento do ego acabou em tragédia auto-estímica.

 

 

- Cada vez mais me assemelho a um cão Basset, porque as pálpebras estão a descair. Aqueles cães que parecem estar sempre a ganir por dentro, como se estivessem cheios de pena de si mesmos, literalmente com cara de cachorrinhos. Só espero que isso ajude a que cuidem de mim na velhice. Desde já aviso que se me atirarem um pau não vou buscar.

 

 

- Quando faço zapping detenho-me cada vez mais na RTP Memória. O dedo parece que gruda quando passo ali, como se sentisse o chamamento da sereia idosa. No outro dia estava a dar o talk-show do Júlio Isidro e eu parecia o meu avô a rejubilar com malta da velha guarda “Olha, este!”, “Olha, aquela!” A RTP Memória é a minha cena e isso assusta-me.

 

 

- Começam a aparecer-me uns pontinhos castanhos na pele. Eles vêm de mansinho, mas já topei alguns. Quando somos crianças é giro ter pontinhos castanhos na cara, vulgo “sardas”. Mas à medida que envelhecemos são pontinhos pelo corpo todo, cada vez maiores. Parece que apanhámos uma varicela castanha ou uma praga qualquer, da traça da batata ou míldio, não faço ideia. Acho que vou consultar um engenheiro agrónomo.

 

 

- Sinto-me a criar uma pança para o futuro, como quem cria um PPR. Experimento sentimentos contraditórios quando olham para a minha barriga com abas e dizem: “Estás em excelente forma!” Porque normalmente é dito por amigos ou familiares pançudos e soa a conversa de nereidas anafadas, que nos querem atrair para o seu clube.

 

 

- Ainda compro CDs. No Natal calcorreei várias lojas para encontrar um CD que queria oferecer ao meu irmão e os funcionários olhavam para mim com ar de pena e estranheza a pensar “Este ainda vive no mundo dos CD.” Num dos sítios chegaram a responder-me devagarinho, como a um louco medicado: “Olhe, os CDs estão naquele cantinho, mas a secção é para descontinuar.” Só faltou falarem mais alto, para ver se eu compreendia melhor. Da próxima vez ponho a mão na orelha em funil para tornar as coisas mais interessantes.

 

 

- Já entrei na fase dos pêlos estranhos. Começam a irromper pêlos em catadupa de dentro das orelhas e do nariz, como bouquets. Mas também brotam uns pêlos matreiros da parte de fora das orelhas e do nariz. E eu sei que isto acaba mal, porque vou ficar como o meu avô, que tinha o seu bosque pessoal de rijos e viçosos pêlos na batata do nariz.

 

É o corpo a dizer-me que já cumpro os requisitos para entrar na andropausa, pelo que já não é preciso manter o cenário de pé, e deixa o matagal crescer à vontade, como ervas daninhas. Houve tempos em que o meu organismo tinha um Plano de Ordenamento do Território e mantinha as pilosidades em ordem. Mas isso acabou. Agora sou eu que faço barba, nariz, orelhas e é se quero. No outro dia apareceu-me um pêlo branco na narina e, como sou careca, só aí percebi que estava a ficar grisalho. Ou seja, não só não tenho cabelo, como o envelhecimento me aparece pelo nariz. Mais digno é impossível.

 

 

 

Quanto mais convivo comigo, mais me apercebo de que não sou único. Sou uma colagem esquisita dos meus antepassados: o nariz peludo do avô, as manias de meia-idade da mãe, os tiques do pai – de quem herdei uma estranha tendência para levar a mão à orelha, a fim de coçar o lobo da mesma. Quando a mão vai a meio caminho dou por mim a pensar “Porque é que eu estou a fazer isto?” Mas faço na mesma. Constato aos 41 anos que sou uma espécie de Frankenstein. Se me aparecerem dois parafusos no pescoço acho que ninguém vai estranhar.

A churrasqueira lenta

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Conheço uma churrasqueira que tem filas intermináveis à porta. E o incrível é que há outras duas churrasqueiras mesmo ao lado – mesmo, mesmo ao lado –, uma na porta acima e outra na porta abaixo. Mas só a do meio vinga. As outras estão às moscas.

 

O frango da do meio é de facto melhor, mas não é o Santo Graal do churrasco. Por isso pergunto-me se parte do sucesso deles não residirá na lentidão do serviço. Porque isso permite-lhes acumular um mar de clientes rua fora que lhes dá uma aura especial, parecendo que só aquele frango é comestível e o dos outros conduz potencialmente à morte. Eu sei que isto soa a teoria da conspiração, mas acho que esta tem pernas para andar, porque eles conseguiram atingir um verdadeiro profissionalismo lerdo. Vejamos como:

 

O elenco é composto por quatro funcionários. No principal papel temos uma senhora dos seus 60 anos que, apesar de saber que há um ror de gente para atender, fá-lo com todo o tempo do mundo. Corta o frango bem cortadinho e prepara-o com todos os efes-e-erres a ritmo de tartaruga entrevada, enquanto mete conversa com a pessoa que está a atender sobre os filhos, os genros ou os netos do raio que a parta. Depois há dois funcionários que estão de cotovelo na bancada e que vão fazendo umas coisas. Não se sabe bem o quê, umas coisas. Mas estão devidamente fardados de camisa branca e calça cinzenta, como se estivessem preparados para todo o serviço. Acho que o trabalho deles é estar devidamente fardados. E depois temos o escravo que vira os frangos e que realmente trabalha. Mas é a excepção à regra daquela péssima linha de montagem.

 

Eu estava habituado a outras churrasqueiras, cujo funcionamento está nos antípodas desta. Conheço uma que é tão eficaz que mais parece um campo de extermínio de frangos. O cheiro do respectivo Holocausto aviário sente-se a três quilómetros de distância. Eles são tão rápidos que já devem ter “churrascado” pessoas por engano. Aviam clientes às pazadas. Conseguem desbastar uma fila de gente em meia dúzia de minutos. Parece que estão a treinar para as Olimpíadas do Churrasco ou que querem ser contratados pelas melhores churrasqueiras do mundo.

 

Já a supracitada churrasqueira do meio está mais empenhada em bater recordes mundiais de pastelanço. São estratégias tão diferentes que espanta como ambas conseguem ter tanto sucesso. Dava vontade de contratar um antropólogo ou um sociólogo para estudar o comportamento das churrasqueiras.

Contra o apartheid dos parques infantis

https://www.publico.pt/2019/03/01/culto/cronica/apartheid-parques-infantis-1863840

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Há pais que se percebe que vão ao parque infantil em desespero de causa. Precisam de soltar as crianças, como quem solta os cães, enquanto se deixam cair no banco de jardim e tentam recuperar a consciência. Só querem ficar quietos um bocadinho, invisíveis, em posição fetal, de preferência, e até tremem de medo quando ouvem ao longe o terrível chamamento, caracterizado pelo arrastar da última letra: “papááá” ou “mamããã”.

 

Eu já tive os meus momentos de pai fetal no parque infantil, mas por norma consigo estar fora da zona de desespero, embora perfeitamente disponível para ser deixado em paz. No entanto, as solicitações não tardam. É-me pedida ajuda para subir à corda mais difícil, para empurrar o rabo no baloiço, para empurrar o rabo na parede de escalada. Por vezes sinto que a minha única grande tarefa no parque infantil é ser empurrador de rabos.

 

Às vezes os meus filhos pedem-me que suba aos divertimentos com eles e eu penso “Porque não? Entre isso e empurrar traseiros…” Mas nessa altura lembro-me da ameaçadora placa à entrada do parque que diz “Idade: Dos 3 aos 12 anos. Entidade fiscalizadora: ASAE.” E ninguém se quer meter com a ASAE, que deve ser a Gestapo dos parque infantis. Então tento explicar aos catraios: “A sociedade não me deixa subir. E a ASAE também não. Pode haver coimas.” Mas eles fingem que não percebem e estendem-me o braço.

 

Lá acabo por subir, correndo o risco de a avozinha ao meu lado ser fiscal da ASAE. Há quem faça parkour, eu subo a casinhas de madeira e desço escorregas à sorrelfa. São duas formas distintas de sentir a mesma adrenalina. É óbvio que se estiver um forte trânsito – não confundir com Ford Transit – de crianças, não vou lá para cima dar uma de Gulliver, espezinhar a pequenada. Mas se houver boas condições de circulação, arrisco a transgressão. E já percebi que não sou só eu, já vi vários pais em manobras clandestinas e perigosas no parque, como andar de baloiço ou sobe-e-desce.

 

Não percebo este apartheid entre adultos e crianças nos parques infantis, quando hordas de psicólogos, pedagogos e paramilitares nos massacram com a ideia de que é fundamental brincarmos com os nossos filhos. Dizem que liberta oxitocina, plasticina e outras “inas” aconchegantes; que estreita laços, estreita a comunicação, estreita a ligação Belém-Trafaria. Suplicam “Não deixe morrer a criança que há dentro de si”, o que me assusta, porque pode querer dizer que estou grávido e ainda por cima de um bebé em estado crítico.

 

Eu acho que isto dos equipamentos recreativos devia ser ao peso, como no talho. “Este baloiço aguenta até 200 kg de pessoa.” Se o ser humano inventou coisas extraordinárias como o café sem cafeína e as palmilhas Dr. Scholl, tenho a certeza de que também consegue construir escorregas e sobe-e-desces à prova de pais de grande porte.

 

Acho­­­­ que está na altura de defender o superior interesse do adulto no parque infantil. Porque compatível com o outro superior, da criança, numa conjugação de superiores nunca antes vista. Deviam abrir parques com equipamentos multi-idade, para libertar os pais que, como eu, não podem estar sossegados, nem muito interactivos. São pais nem-nem, que vivem neste purgatório de empurradores profissionais, como bolas descoloridas entre as mãos de uma criança. Apelo, por isso, ao fim deste aperreante regime de segregação etária no parque infantil.

Pede-se o favor de não limpar a casa de banho

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No restaurante de um clube recreativo, para os lados de Sacavém, vi um papel na porta da casa de banho que dizia:

 “Pede-se o favor de não sujar nem limpar a casa de banho. Deixe-a como encontrou.”

Aquilo não parecia uma casa de banho de um restaurante, parecia o local de um crime.

 

Quem é que se dá ao trabalho de limpar uma casa de banho fora de casa?

Será que há alguém que diz “Olha para esta casa de banho. Deixa-me cá dar uma lixiviadela que este chão não está em condições.”? Entretanto, aparece o amigo: “Então, não vens para a mesa?” “Já vou. Deixa-me só passar Cif Gel nesta retrete, que isto está uma desgraça.”

 

Claro que aquela mensagem pode ser só uma piadola de trazer por casa. De banho. Mas e se não for? (Entra som assustador de filme assustador) Fica a questão.

 

Se calhar foram vítimas do perigoso gangue limpador de lavabos, que já higienizou várias sanitas e lavatórios do município de Loures a sangue frio. Ninguém está a salvo da violência dos seus lava-tudos perfumados. A polícia anda no encalço desta pandilha há anos, mas até agora sem sucesso, porque eles eliminam todas e quaisquer impressões digitais com lixívia Neoblanc Densa+ Harmonias Florais.

Carta ao casal de pandas da minha escola primária

https://www.publico.pt/2019/02/13/culto/cronica/carta-casal-pandas-escola-primaria-1861653#gs.RquBgfez

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Caros Sérgio e Rita,

 

Ainda me lembro do dia em que vos encostámos aos muros da escola, como caçadores furtivos a dois animais assustados. Queríamos à viva força que vocês se beijassem ali ao pé dos pedregulhos, ao fundo do campo de futebol. Vocês queriam privacidade, mas não estava fácil, uma vez que, para onde quer que fossem, a turma inteira ia atrás a gritar “Beija, beija!” Se vos tivéssemos perseguido em caravana de jipes descapotáveis, com holofotes apontados e binóculos ao ombro, ao estilo safari, não teria sido pior. Ainda bem que vocês não tinham um corno na ponta do nariz, senão estavam tramados.

 

O vosso olhar de semi-pânico era uma pista de que algo não estava bem. Mas nós continuávamos, porque estávamos eufóricos, descontrolados. Vocês eram o mais próximo que tínhamos visto de um casal de namorados a sério e achávamos que iam satisfazer toda a nossa curiosidade no que ao amor diz respeito: “O que é isso de ser namorado? É dar a mão, beijar? Como? E para quê?”

 

Hoje em dia, olho para o meu filho e vejo que podia ter resolvido estas questões de uma forma prática, porque ele com 7 anos disse-me que tinha quatro namoradas na escola e eu perguntei-lhe “Ai é? Há quatro meninas que gostam de ti?” “Não sei.” “Não sabes?” “Não.” E a conversa acabou aqui, porque percebi que ele tinha passado directamente da fase dos amigos imaginários para a das namoradas imaginárias e vivia bem assim. Era um pouco indiferente se tinha quatro ou zero namoradas, porque o importante era jogar à bola e correr à volta da escola como um hamster numa roda. Mas eu não tinha estas soluções. Possivelmente porque era estúpido, pouco criativo. Queria respostas.

 

E vocês eram as nossas cobaias amorosas. Por outro lado, estávamos genuinamente a torcer por vocês. Queríamos muito que a vossa relação desse certo. Porque vocês tinham tudo para dar certo.

 

Tu, Sérgio, eras o mais alto da turma, o que para mim era o mais parecido com um adulto, logo o mais capaz de ter um relacionamento como deve ser. E tu, Rita, eras a rapariga gira e despachada, que usava calças de fato de treino com estrelas – nada de padrões lisos sensaborões – e às vezes uma fita grossa na cabeça, como aquelas da aeróbica, o que te colocava num patamar de modernidade e desenvoltura muito acima do resto da turma.

 

Tínhamos grandes expectativas para vocês. O vosso plano de vida estava traçado, mesmo que não soubessem. Vocês iam casar e ser felizes para sempre, sem direito a divórcio ou a qualquer desvio a este plano maravilhoso. E para garantir o sucesso do vosso acasalamento estávamos dispostos a dar-vos o nosso apoio incondicional durante 24 horas por dia, se fosse preciso. O que neste caso se traduzia por uma feroz turbamulta de bibe azul a encurralar-vos junto à vedação da escola primária – sim, usávamos bibe, lembram-se?

 

Eu sentia-me um bocado mal a fazer aquilo, mas fazia na mesma. Porque era criança e de alguma forma intuía que me era permitido fazer coisas parvas. Apresento-vos desde já as minhas desculpas por qualquer incómodo ou trauma causado.

 

Reconheço que o método de claque de proximidade não era o melhor. Acho que fizemos com vocês o mesmo que se faz com os pandas-gigantes em cativeiro. Como é que os pandas hão-de ter um rancho de crias quando têm meio mundo em cima deles a dizer “Vá, namorem, façam coisas”? Eu também não sei se conseguia acasalar com a torcida dos Super Dragões ou dos No Name Boys à minha volta com palavras de ordem como “Campeões, olé, olé!” ou “Carrega, Benfica!” Se calhar fazia como os pandas e perante os olhares estranhos e câmaras ocultas desatava a mastigar um rebento de bambu.

 

E vocês eram os nossos pandas, Sérgio e Rita. Eram fofos e a vossa vida amorosa estava a ser mais escrutinada do que a dos concorrentes da “Casa dos Segredos”. Talvez fosse pressão a mais, mesmo para os vossos ombros, que pareciam bafejados pela selecção natural. Não sei o que é feito de vocês. Espero que não estejam em cativeiro. Seja como for, é meu desejo profundo que tenham toda a privacidade de que necessitam. E o melhor bambu que a natureza já viu nascer.

O medo inato de espanhóis

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Um dia destes, a minha moça disse-me: “Apetece-me ir ao estrangeiro.” Então fomos a Badajoz.

 

E não se pense que é fácil ir a Badajoz. Há um nervoso miudinho que aflora sempre que transpomos a placa fronteiriça que diz “ESPAÑA”, por mais que visitemos o país vizinho. Não sei se é simples medo do desconhecido ou se guardamos um nervoso miudinho especial só para os espanhóis. Conheço gente que mais depressa vai de Vila Real de Santo António a Valença do Minho do que atravessa a fronteira para Espanha. São pessoas que sofrem de hispanofobia, uma maleita que vai rareando nos nossos dias.

 

Seja como for, acho que todos os portugueses nascem com um certo medo inato de espanhóis, que vai ficando cada vez mais adormecido à medida que crescemos e percebemos que os castelhanos não nos querem invadir. Mas está lá, para as emergências. Deve ser por isso que conservamos um provérbio ou dois a maldizer os espanhóis, como aquele do vento e do casamento, não vão eles armar-se em espertos e atravessar a fronteira do Caia ou de Vilar Formoso com um exército de cavalaria e besteiros.

 

Superada a placa e o respectivo trauma, decidimos dedicar-nos a esse jogo clássico e profícuo que é “Descubra as diferenças entre portugueses e espanhóis”. Porque esta coisa das fronteiras é impressionante. Basta andar meia dúzia de quilómetros para lá de Elvas e já estamos noutro mundo. É quase mágico. De repente ficamos cercados de presunto. Está por todo o lado. Os espanhóis devem ter fontes de presunto. Vão à fonte e enchem os cântaros de presunto. Já sei quem teve a bela ideia das batatas fritas com sabor a presunto. Só podem ter sido.

 

Em Badajoz também desaparecem as sopas. Pelo menos como as conhecemos. Olhamos para a ementa e só vemos uns gaspachos, umas sopas frias, que vêm mesmo a calhar na brioleira de Janeiro. Dá a sensação que os espanhóis vivem como se fosse Verão o ano inteiro. O horário da siesta mantém-se inalterável na época fria. Durante a tarde, nas poucas horas de luz que o Inverno tem para oferecer, não se vê ninguém na rua. Os museus fecham das 14h às 17h30 e durante essas horas parece que a própria cidade fecha para descanso do pessoal habitante.

 

Mas ao anoitecer, ali pela fresca, mesmo muito fresca, começam a aparecer pessoas. E aparecem de repente, de todos os lados. Parece “O regresso dos mortos-vivos”. Não sei se vêm do cemitério ou de casa, mas são aos magotes. Vêm desde famílias com bebés acabados de sair da maternidade até velhotes de cento e tal anos com pneumonia. Sai tudo. Vai tudo para a movida de Badajoz.

 

O pequeno-almoço também é impróprio para portugueses. Não tanto por se comerem churros com chocolate logo pela manhã, o que qualquer nutricionista aconselharia, mas porque acontece mais um estranho fenómeno climatérico. Não há ninguém dentro dos cafés. Estão todos plantados na esplanada, como lagartos ao sol de Inverno. Não sei como aguentam. Eu tentei imitá-los, para me enturmar, e ia-me rebentando o esmalte de dois pré-molares de tanto tiritar. Ou os espanhóis possuem várias camadas de gordura, como as baleias, ou estão programados de forma diferente dos portugueses. Porque nós compreendemos o conceito de Inverno e de bem-bom, transmitido pelo quentinho interior de uma pastelaria. Já a estratégia deles para o Inverno não passa por hibernar, mas por fingir que o frio não existe. Vivem em negação do Inverno.

 

No entanto, Badajoz ainda é uma terra com madeixas de portugalidade, porque qualquer boteco tem bacalhau. São eles claramente a piscar o olho aos portugas, enquanto pensam: “Estes lusitanos são loucos, metem bacalhau em tudo.” E têm razão. Basta dizer que temos um prato chamado “caras de bacalhau”. Ainda ninguém se lembrou de fazer “caras de garoupa” ou “caras de abrótea”, mas com bacalhau vale tudo.

 

Nós portugueses gostamos de embirrar com os espanhóis: Agora que eles perderam a tendência de nos invadir, é porque falam muito alto no restaurante. O ideal para muitos portugueses era ter um telecomando só para espanhóis, para poder baixar-lhes o volume de vez em quando. Ou então devolvê-los a todos à fábrica, para corrigir a anomalia de fabrico ao nível do áudio.

 

Regressar a Portugal é um misto de conforto e nostalgia. Conforto porque ficamos para cá da placa que diz “Portugal” e a salvo dos besteiros inimigos. Nostalgia porque cada vez gosto mais de Espanha e dos espanhóis. Apesar da confusão sazonal que me provocam. E de terem a mania de colocar as tabuletas de estrada que indicam “Portugal” na mesma letra minúscula que usam para as suas cidades de meia tigela, como se fosse igual aceder a um país inteiro ou ir para Oviedo. Pelo menos nós temos a delicadeza de os honrar com maiúsculas em todas as tabuletas que lhes dizem respeito. Tiram-me do sério estes espanhóis.

Do Tragabolas ao coscorão

https://www.publico.pt/2018/12/01/culto/cronica/tragabolas-coscorao-1851723

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Acho que uma das formas de percebermos que atingimos a idade adulta é quando o grande interesse do Natal migra das prendas para a comida. “Sim, era mesmo este livro que eu queria, mas onde é que estão as filhoses?”

 

Lembro-me de quando era pequeno e salivava a olhar para os embrulhos de Natal que ainda não podia abrir. A minha única grande preocupação natalícia era saber a hora exacta a que se abririam as prendas. Por vezes circulavam rumores na noite do dia 24 de que a entrega seria antecipada, os avós queriam ir para casa, estavam cansados, os meus pais ficavam preocupados e eu pensava: “Boa, já não vamos esperar pela meia-noite! Mas isso quer dizer o quê, onze, dez e meia? Por favor, sejam precisos!” A falta de rigor noticioso dos adultos exasperava-me.

 

Com o tempo, a excitação de espreitar os embrulhos de Natal deu lugar à excitação de espreitar coisas a assar no forno. Hoje em dia compreendo melhor as motivações do meu tio-avô, visita assídua dos natais, que seguia uma dieta rigorosa na Consoada. Comia a canja e saltava directamente para as sobremesas sem passar pelo peru, para se dedicar de imediato à grande paixão da sua vida natalícia, os coscorões. Com ele aprendi que a terceira idade nos enche realmente de sabedoria.

 

Sinto falta dos meus tios-avós, tal como sinto falta dos meus avós. Os avós não precisam de fazer grande coisa para tornar os natais especiais, basta que andem ali pela casa, quais figurantes. Como o meu avô, que passava boa parte do tempo a dormir no sofá e que emprestava quentinho à casa. Uma lareira humana. Pensando bem, acho que o devíamos ter transferido de vez em quando para o corredor, para ver se aquecia aquela parte da casa, que era gélida nessa altura do ano. Eu tinha de correr do quarto para a sala, para não se formarem pedras de gelo nos rins.  

 

Agora o papel de netos passou para os meus filhos e sobrinhos. E a grande diferença que noto em relação aos natais da minha infância é que actualmente os calendários do advento com chocolatinhos se banalizaram. Eu em miúdo só tive direito a uns calendários com uns bonequitos roscofes da Nossa Senhora e do Menino Jesus e nada de chocolates. Sim, há aqui algum ressentimento.

De resto, é tudo muito parecido. Se hoje dizem que as crianças estão perigosamente expostas à publicidade de brinquedos, eu então era um poço de radioactividade publicitária. A minha lista de prendas era decalcada dos anúncios que via entre desenhos animados, d’A minha agenda RTP ao Pulgas na cama, passando pelo Tragabolas. Eu queria tudo o que aparecia nos anúncios. Se anunciassem o Kit de iniciação à heroína, tinha de estar na lista.

Aviso: O autor desta crónica compreende que algumas pessoas possam não reconhecer as referências presentes neste parágrafo, pelo facto de o cronista já ser quase ancião ou praticamente um jovem, conforme o ponto de vista.

 

Também mudou a forma como encaro o presépio, que em nossa casa é grande e envolve considerável produção. Antigamente empenhava-me em pôr as figuras no presépio seguindo à risca o teatrinho bíblico e as regras de perspectiva, com as peças maiores à frente e as mais pequenas atrás. Embora se notassem brechas nessa lógica, porque tínhamos um pastor de flauta que era maior do que os camelos dos reis magos, logo ao lado. Havia também a figura cuja base se partira e da qual recusávamos desistir, como um ferido de guerra que não podia ficar para trás. Tentávamos equilibrá-la mancamente num pedaço de musgo, mas ela teimava em cair, como se dissesse “Vão, deixem-me! Eu fico aqui! Vocês têm mais bonecos com que se preocupar. O presépio precisa de vocês!” E de facto acabávamos por deixá-la estendida a certa altura, porque não havia paciência para reanimações de dois em dois minutos.

 

Os problemas de electrificação também eram recorrentes no presépio. E por vezes as luzes falhavam onde eram mais necessárias, na manjedoura, mergulhando a Sagrada Família no reino das trevas. Dava a ideia que alguém daquele agregado familiar se tinha esquecido de pagar a conta da electricidade e que a EDP lhes tinha cortado a ligação, logo no dia em que precisavam de receber rebanhos de amigos e de ovelhas. Aliás, as luzes do presépio eram tantas, que só o exercício de as camuflar ardilosamente no meio do musgo e do restante cenário, juntamente com a respectiva manutenção, era coisa para criar dois ou três postos de trabalho temporário.

 

Nos dias que correm divirto-me mais a trocar a ordem das figuras do presépio, o que não agrada a certos sectores da família, mas para mim é quase irresistível testar as possibilidades de tantas figurinhas juntas. Se pusermos um rei mago no lugar do São José, por exemplo, damos imediatamente origem a um escândalo ao estilo telenovela «Belchior exige a Maria que conte a verdade a José, de que o bebé é seu. Não é por acaso que anda a oferecer ouro todos os anos.»

 

Fazendo o balanço, o Natal é obviamente mais divertido em criança, porque é possível manter um pico de entusiasmo contínuo ao longo de um mês que só adultos bipolares conseguem igualar nos seus melhores períodos de euforia. Acho que foi por isso que os adultos investiram tanto na comida natalícia, para arranjar pontos de interesse para eles. O que se nota em particular nos doces, que são quase infindos e com nomes tão estranhos que muitos podiam substituir a palavra “tabefe” de forma credível numa frase: “Vê lá se não queres apanhar uma rabanada?” “Experimenta e levas com um par de coscorões!”

 

O engenho natalício do ser humano é impressionante, porque todos têm algo por que ansiar independentemente da idade, do Tragabolas ao coscorão. E quem não concordar comigo leva com duas azevias na fronha.

 

Pessoas-monólogo

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Há pouco tempo estive numa festa em que levei com quatro monologantes nas ventas. Não desejo isso a ninguém. Foram quatro KO de conversa seguidos. Ao fim do quarto monólogo estava de rastos. E o pior de todos foi mesmo o último, que me despejou toda a história do singular apelido de família em cima, desde as origens numa remota aldeia espanhola até se espalhar pelos quatro cantos do universo, terminando de forma magistral com a frase “Desculpa lá, relembra-me o teu nome.”

 

Estas pessoas-monólogo não precisam de mais do que um recém-conhecido para disparar os seus mísseis de conversa. Encostam-nos às cordas, enchem-nos de pancada verbal, numa sequência infindável de ganchos e uppercuts de palavreado, e não estão disponíveis para receber um único perdigoto em troca. À mínima resposta da nossa parte mostram um ar agoniado, como se estivessem prestes a vomitar no barco para as Berlengas. Quando a festa acabou nem conseguia articular palavras, só balbuciava, porque já me tinha esquecido como se juntavam sílabas. Acho que deviam criar uma linha de apoio à vítima de monólogos.

 

Quando estou com uma pessoa-monólogo sinto-me como se estivesse em frente à televisão. Ali estou mudo e quedo enquanto elas providenciam conteúdos durante 24 horas a fio, se for preciso, como um canal televisivo. Se eu conseguisse juntar mais de cem monologantes na mesma sala podia dizer que tinha mais de cem canais. Quando estou acompanhado por outra pessoa posso dar-me ao luxo de me evaporar da conversa ou pelo menos de me desligar por momentos da emissão televisiva e recuperar mais tarde o fio narrativo pensando “Deixa ver o que está a dar no Zé João.” Mas a solo tudo fica mais perigoso.

 

Posso ter a sorte de apanhar um monologante interessante, daqueles que entretêm, como certos canais. Ou o azar de apanhar os que são tão entusiasmantes quanto o Canal Parlamento ou as televendas, vulgo “Pessoas que não dão nada de jeito”. Quando caímos nas garras de um chato deste calibre todos os expedientes são válidos para lhe escapar. Desde o subtil “Desculpe, mas tenho mesmo de ir fazer cocó”, ao aproveitar de um toque de telemóvel para dizer “Peço desculpa, mas vou ter de atender. É da Telepizza.”

 

Também já dei por mim em registo monologante. Já atropelei intervenções de outras pessoas sem dó nem piedade, como um rolo-compressor de conversa. Por isso sei que tenho essa semente diabólica dentro de mim, o que me causa alguns arrepios. Não me quero tornar num especialista da escuta inactiva. Se calhar já me converti num daqueles seres que transformam dois minutos que podiam ser interessantes num fardo de palha de meia hora. Mas prefiro acreditar que não. Por isso vou aconselhando aos meus filhos “Não aceitem monólogos de estranhos.”

 

O Vieira dos frangos

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Fui a um restaurante chamado “Vieira dos frangos”. Como estava com pressa pedi logo dois frangos. “Não temos frango.”, disse a empregada de mesa. “Mas vocês não se chamam ‘Vieira dos frangos’?” “Sim, mas frangos é só às quartas.”, respondeu a empregada já eriçada. “Se quiser frango tem de esperar 25 a 30 minutos. A sair temos feijoada de chocos”, completou.

Acho que foi a primeira vez que entrei numa casa de frangos cuja especialidade não é frango. E o mais interessante é que o espaço estava todo decorado com bonecos e desenhos de galináceos. Deve ser uma cena nova. Em breve os donos deste restaurante vão abrir a “Pizzaria Vieira”, que só tem pizza às segundas. Nos restantes dias é feijoada de chocos. Nunca lhes passará pela cabeça abrir uma Feijoaria, porque isso vai contra os seus princípios.

Dito isto, recomendo o Vieira dos frangos. Não só pela experiência única, mas também porque a feijoada de chocos era boa, o pão óptimo, o preço barato e o serviço de mesa rápido e eficiente. Tudo funciona, desde que não se queira frango.

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